VV 42

.
.
.
(Ibirapuera, o parque do) ..... Imagino o túnel no seu aspecto, no seu mesmo lugar e rumo. Imagino um outro: caminhante, cair de folhagem, cachorro na guia e árvore, trator. Florir de folhagem também diga-se. Imagino isso, um outro transeunte, mais cachorros, as novas e nunca velhas árvores, até onde houver parque – até onde (quando) haverá parque? ou gente para preenchê-lo de acúmulos, trespasses vivos.
.

*
.
(cf) ..... Por volta das 3 e meia: a Lua é tanta que já parece amanhecendo. À tarde: cheiro de chuva. Cheiro de chuva despudoradamente sucinto. Cheiro de chuva. Seria bom se chovesse – um daqueles chuvões mesmo, de lavar a alma, lavando e naturalmente sem afogar – e melhor ainda ouvir depois a After the Rain de John Coltrane, bem alto. Por volta de um impreciso quando: uma flor de alamanda caída bem apegada ao chão amarela; mamão na casa de passarinho, melhor, uma banda dele, quase ao osso; o muro da esquerda é verde não de tinta é da trepadeira que o encobre, à direita é outro e de outro verde, bambus e suas folhas (lineolares?). Eu abria a enciclopédia sobre a cama aproveitando a luz da janela a ver se a Botânica me dava uma explicação em palavra a essa exatidão de desenho de folhas que os bambus têm (monocotiledôneas, zigoma, cespitosas, bainhas, espigas, cariopses...) e sem querer levanto a vista – de repente um arco-íris. Um palmo à frente dos olhos e ele vai além dele. As pontas coloridas do arco além dos dedos esticados em pontas. Ponte. A ponte da palma sobre a ponte lá, celeste; as cores úmidas.
.

*
.
(D) ..... A chuva garoa (aqui garoa é verbo, de garoar) ou é a garoa quem chuva. Chuva. Garoa. Fina de riscos ínfimos como uma neve fina. Nas árvores, no bosque-mini, e nestas quatro margens de borda a cal espaço trapezoidal só grama. A tinta escorregando no papel, aquele senhor amarra o cão e vai embora, sons: um avião e um trovão, trovão e avião à distância. Pinheiro. Este tufo em que pisei tufo de grama entre ladrilhos não era um tufo era um embolado e pequeno lenço de papel. Sabiá cisca, outro sem nome voa raso e muito, mínimo.
.
*
.
( . ) ..... Aqui não é para ter indicativo, fica assim vazio, indefinido, para qualquer preenchimento, de um lugar futuro ou nenhum lugar possível, ou de um dos que foram como se nele se levitando ou assim levitativo em todos ao mesmo tempo. Um vestígio exclusivo – quem sabe também aqui todos sejam de exceção como aquele décimo quinto dos do Ibirapuera há anos.
......... Pra vir aqui a esse último pensei em reler todos os vestígios os revivendo os ressaltando refrescando o sono da memória ida e comentar isso. Não li. Em todo caso eles não deixam de estar em mim cá comigo, como um móbile de cérebro, de neurônios, panos no varal estendidos, e um vento pode vir e balança um certo indício, um caminho revisto em que veio vindo o que vi – a sensação de ter visto, vivido –, vestígios de vestígios. Miscelâneo, retalhudo, tento assoprar os pedaços, de novo passeio os passeios que andei. Um céu de junho, um pôr-do-sol de agosto; uma ladeira abaixo um parágrafo ininterrupto e seu ponto as catedrais e campanário cavalo no campo; a curva de esquina o prédio público ou residencial uma placa de trânsito casas as repetições, as pessoas transitando rua transitando estrada transitando bichos floradas os semáforos de tripla cor o ar, as luas, os sóis. A gente se põe a escrever e nunca sabia que tinha certas palavras dentro da gente. E ao escrever escrever pareceria pra sempre – quer dizer: parecia que apareceria sempre novo espaço, novas horas ou tempo novo de pôr ou viver uma opinião. Acabou.
......... “Daí mas descambava, o dia abaixando a cabeça morre-não-morre o sol.” como diz o Iô João Guimarães Rosa em seu Campo Geral. Não obstante também diz, Buriti: “[...] a beleza a todo instante se refaz, dos olhos dos que a contemplam”. E aí esse primeiro dos é de todo especial – a beleza não só se refaz nos mas por, por causa dos olhos dos que contemplam, não só por receber o que se enxerga mas ao oferecer o enxergar. Ao que pode-se acrescentar aquela música que canta: um amor tão puro carregou meu pensamento. O grau de renovabilidade dele, pensamento revível. “Tudo é vida.” (E ali não é daquele é de outro Iô, o maestro, senhor Antonio Carlos Jobim, Chovendo na Roseira.)
......... Acaba. Acabou.
......... Expediente está fechado, façamos o balanceamento, desculpe qualquer tormento, perdão por exemplo se firo algum tato por tantos trechos citados, acho que principalmente nesses últimos, não é pedância, é urgência, de conveniência, de aceitação, dos fragmentos da bilionésima parte de bilhão da muita literatura que não sei. E no mais pode-se defender: qualquer livro ou escritor a escrever é uma forma ou reforma vestigienta de ser. E no mais mais um; um texto, um parágrafo, do seu, do nosso e mais uma vez e de novo irrecusável, senhor Joaquim Maria Machado de Assis – é de uma nota sua (dele) a um seu poema em pequenas letras numa página absconsa com que me deparei e não vou me vetar a transpor:
.

............. Nada há tão deveras melancólico como esse contraste do homem com toda a mais natureza. Muita vez, subindo a alguma das eminências da nossa cidade, e lançando os olhos do corpo a essa vasta aglomeração de obras que a civilização criou e perfez, volvo os da alma a quatro séculos antes, quando uma sociedade semibárbara dominava as margens do golfo e as terras interiores. Nenhum vestígio há já dela; nenhum vestígio há de haver da nossa, depois que volverem outros séculos; mas o sol que os alumiou e nos alumia é o mesmo; e toda a natureza parece indiferente às nossas obras caducas.
.
......... Arremato? Adeus vestigiamento, 42 até logo. Adeus praças, foro, forum, adeus parques adeus fenestras, vestígios a Deus. Até logo? A passagem dos séculos é passageira. Tudo é vida, vida é tudo, tudo some? Aquele tronco, tronco-toco podado a modo de escultura daquela praça de ovo ao meio, outro dia passei lá e... escultura nada. Podaram-no de vez, mais toco do que nunca, hoje só tem uma leira, florida, espécie de sepultura, elevação aposto por esconder o rés do toco enterrado, embaixo, não deu tempo nem de uma foto coisa que cogitava e não fiz. Palavra. Asfalto. Hera e muro. Natureza, natureza em seu N maiúsculo, ser humano. Arremato.
.
1 01 02

.
.
* . * . * . *
.
.
rua, jul.2010
.
.
praça C, jul.2010
.
.
Ibirapuera, jul.2010
.
.
cf, jul.2010
.
.
.

Nenhum comentário: