s.e. XXVI

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.......... A funda respiração funda as estacas de uma liberdade.
6set98
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vestígios do ibirapuera

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Os ramos dos pinheiros coam os raios de sol,
originando um efeito semelhante ao da luz que penetra pelos vitrais de uma catedral.
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Robert M. Pirsig, Zen e a arte da manutenção de motocicletas
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Passam cinco, quatro homens e uma mulher, todos de camisa branca o que me faz pensar serem médicos, ainda se se contar a hora da manhã, 6 e meia, tida como “saudável” para andanças assim. E a deles é firme e olhando para frente. Os homens têm cabelos brancos, sendo o mais obeso – o único obeso, os outros três são senhores magros – vai com os cabelos não tão brancos, grisalhos, e usa um bigode, sendo acho que único também nisso. Os outros três, ou dois dos outros, usam óculos. A mulher não é macérrima, tem um penteado curto meio loiro-enruivado e quando disse que a andança de todos é firme e olhando para frente menti; firme sim, mas a da mulher por exemplo não é tão pra frente – seu olhar oblíquo pro chão mistura o que há de vir com o asfalto e assim vai se guiando por este intermédio. Ela e o do bigode parecem mais jovens, ela mais que ele, mas não mais inteiros, os três senhores parecendo mais. Outro que não olha tão reto é o gordo; ele conta uma história que não dá para ouvir (daqui), dirigindo-se mais ao senhor à sua direita que, este sim, vai firme e para frente, dando a entender que o papo do gordo é de um profundo desinteresse, daí vindo talvez a obliquidade da mulher. Penso no ato “gordo, você fala muito” e vem a ideia de escrever. Agora os cinco já passaram, há um bom tempo.
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9 03 98
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VI 2

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Duas mulheres brancas, um pouco obesas nos seus 1 m e 60 ou 65 de altura. Ambas de camisas brancas e folgadas, sendo a da direita nem tanto, estando mais colada ao corpo e por isso dando a impressão de mais obesa, mas não necessariamente é, talvez as duas sendo tanto quanto. A da esquerda tem duas cores no cabelo, um castanho escuro com mechas finas de um loiro esmaecido, um loiro feito; a da direita é ruiva, um ruivo claro, quase suave, com uma fivela dourada fazendo um rabo-de-cavalo prensado. Quatro seios pequenos, dois quadris largos; ambas com aquelas calças justas que acabam acima do tornozelo, as da esquerda pretas, as da direita um marrom claro (ou ao contrário, não lembro, a essa altura já passaram). – ou a da direita teria camisa bege e a calça um marrom não tão claro? Ambas com tênis brancos; com meias, eu acho. A da bicolor nos cabelos falava mais, com gestos dos braços às vezes retos mas na maior parte redondos; dividia o olhar entre a outra, o chão à frente da outra e a própria frente, nem acima nem abaixo. A ruiva clara falava menos, mais comentava, atava as pausas da amiga, se é que o são, e de movimento nos braços só o do balanço de cada passo. O ritmo nem lento nem rápido; não sei explicar qual – cadenciado. As vozes tranquilas, “macias”, principalmente a da loiro-castanha; daí a impressão de serem amigas ou ao menos viverem num dia amigável. Anéis, pulseiras, brincos, relógios? – passaram ao largo.
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16 03 98
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* Deram a volta e as revejo nesse instante. (Que olhos são esses?) As calças não são “aquelas calças justas que acabam acima do tornozelo”, são moletons soltos, largos, indo até embaixo nos tênis, nem dá pra ver se têm meias. O da bicolor é marrom-escuro e o da ruiva preto; a camisa da última é cinza-claro. A bicolor tem um colar delicado e dourado e a ruiva um relógio no pulso esquerdo (também delicado e acho que também dourado (elas se foram de novo)). Leva não sei o que embrulhado na mão direita. Ambas são mais obesas do que minha memória tinha formado.
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VI 3


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Uma dupla de homens. Ambos lá pela casa dos 40. Passam rápido, a meio-trote, e as características com eles. Os dois de calção e o mais baixo sem camisa (está frio e nublado, choveu à noite, o chão molhado, tudo úmido – o ar fresco-agradável). O menor – estatura mediana – tem um bigode esquisitamente (compactamente) cinza; o cabelo é grisalho, de longe uma peruca clara de bombril; no pescoço um colar dourado com o pingente (cruz ou o que seja) lançado pra trás, pra, imagino, não bater na cara enquanto trota. O grandalhão, de camisa e quadril alargado, não tem bigode nem nada de mais; um cabelo preto nem curto nem longo, normal. Os dois falam, entrecortando frases curtas entre as respirações bem mais curtas que as frases. Distingo um “e tem a subidinha... e tem a subidinha...” e não distingo mais nada. O calção do grandão é verde, aquele verde azulado que acaba se discutindo se é um verde azul ou um azul verde; calção não: bermuda.
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(Do meu camarote vejo o trânsito das pessoas crescendo conforme a manhã avança; muita gente agora nos dois sentidos, vários me olham (achando esquisito?). Brotam vários “relatáveis” como pedindo um vestígio, ao contrário do tempo em que o bigodudo e o grandalhão passaram, mas seguro o relato só nos dois mesmo, ainda que tenham sido meio desenxabidos. Fico esperando que reapareçam, tendo dado a volta; não dão.)
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2 04 98
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VI 4


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Cada andar é uma digital. O desse garoto é espigado, tranquilo, com um gingado lateral como uma sutil serpente em pé. Usa um boné azul-escuro, eu acho (já sumiu), com alguma parte mais branca ou mais clara (a aba ou alguma palavra na frente). Camisa também de azul escuro, mangas curtas, uma faixa branca de manga a manga passando pelos ombros e costas contornando o pescoço. Tênis brancos, sujos de uso, meias acho que cinza. Uma bermuda de jeans claro cobrindo os joelhos. No seu leve serpenteio, na sua calma, passa uma espécie de nobreza, inconsciente dele, talvez por isso mesmo nobre. À mão esquerda levava um skate com as rodas viradas pra cá, do qual maiores detalhes, aqui, desapareceram. (Deixou cair no chão, pôs um pé em cima e foi-se embora correndo na tábua.) [Acho que não volta, deve estar do outro lado do parque a uma hora dessas, fora que esse banco está gelado à beça, vou embora.]
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31 05 98
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VI 5

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À minha frente, bem no limiar entre mim e a pista onde passam as pessoas, há um pé de jacarandá (?) que literalmente chove suas flores rosa – no ar, no chão da pista, da calçada e da grama daqui. Absolutamente todos que passam admiram o acontecimento. (Já caiu muito e me pergunto até quando haverá flor pra cair (mas ainda tem um monte lá no alto).) (...) Quem vem vindo é uma mulher – 1 m e 80 mais ou menos, tênis brancos, calça de moletom marrom escura, a parte de cima, preta, enrolada na cintura, uma camisa vermelha de manga comprida, cabelos castanhos até o ombro, frisados, é obesa (uns 90 quilos?), quadril e coxas grossas, com todo respeito se fosse um bicho seria uma aliá, sem que isso, de verdade, signifique feiúra – é uma aliá jovem e vigorosa, cada passada é firme e parece levar o espírito leve, contente de caminhar aqui e agora. Usa uns óculos escuros como tiara; só quando passa bem dentro da chuva e sobre o tapete rosa é que percebe o que acontece; olha pra cima lentamente, lentamente diminuindo a marcha, e segurando os óculos com uma delicada mão esquerda repara na copa soltando as flores. Dá um sorriso muito sutil mas muito bonito, e então retoma seu ritmo, seguindo na direção em que vinha. (O tapete está mais denso e a chuva diminuiu bastante. 3 ou 5 flores, pausa, mais 3, 2 ou 5, pausa, assim por diante. As pessoas continuam olhando, se encantando; às vezes param, às vezes comentários, que lindo... olha... um ou outro pega uma flor e leva.) (Parece simples metáfora inventada mas não é: agora mesmo um carro de polícia passou devagar bem no tapete, esmagando uma parte.) (Agora mesmo um homem ficou olhando o tapete, a árvore, o tapete, foi, voltou, parou, reparou... até que tirou uma máquina da mochila e tirou uma foto.) (Começa a garoar bem fininho.) · Indo embora, o tapete parece uma gota de tinta viva caída do céu.
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14 07 98
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VI 6

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Agora o tapete está mais ralo, na pista já quase não tem flores, só algumas escurecidas e amassadas; a chuva estacionou de vez, sendo a copa ainda com muitas flores bem no alto. Passam poucas pessoas. Um homem usa uma camiseta vermelha com um triângulo curvilíneo e amarelo no centro do peito, com algum símbolo preto dentro (talvez o emblema da Ferrari). É magro, 1,80 m, cabelo e bigode pretos, tênis e calção justo e brilhante também pretos, meias brancas e corre de um jeito engraçado como um cômico de um filme italiano, é como se o seu esqueleto fosse duro mas todo o revestimento mole, ou o contrário. Como se pisasse um mar de ovos na ritmada corrida; na cara de repente abre um desses sorrisos que não são de alegria, mais careta, por dor muscular ou orgânica – o queixo quase encosta no peito, a boca se abre mostrando os dentes de baixo, pouco depois se desfaz. (Agora o céu já é quase todo azul e tudo se cobre de pedaços laranja e suaves por toda parte. 15:30... 16h.)
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15 07 98
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VI 7

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Muitas bicicletas, patins, as pessoas passam rápido e pela rua dos bambus não vão nem vêm muito, a grande maioria trançando aqui à frente, como mil daqueles alvos de parque de diversão. Demora a aparecer o candidato... (...) Ele é um senhor que chama atenção pelo ritmo contrário. Vem lentamente empurrando sua bicicleta rosa, à sua esquerda, com as duas mãos no guidom. É magro, calças azuis muito escuras, folgadas, óculos de formato retangular e prateados, sapatos pretos de sola baixa, aparentemente confortáveis. Uns 55 anos? Usa uma malha com estampas horizontais marrons e beges, um boné cinza bem claro por baixo do qual o cabelo grisalho foge se espichando. Não é só o ritmo inusitado: seu percurso zanza as linhas retas dos outros – veio da direita pela calçada, me olhou de relance, parou à esquerda ainda na calçada, sentou-se ao volante, me olhou de relance (mais tempo), ficou olhando pra todos, continuou, cruzando a pista à direita em diagonal, no caminho um menino (neto, conhecido...) trouxe uma mala azul e lhe deu, pendurou no punho direito do volante, o menino se foi, ele continuou à esquerda subindo à calçada de lá e seguindo ainda lento e empurrando a bicicleta; o menino voltou a interceder e a se afastar, sumiram lá bem pro oeste (da minha visão). Antes de ter aparecido, reparava em como os sons se avivam quando as pessoas ou uma delas é focada (isso especialmente depois que o choro de um bebê carregado por uma mulher sobressaiu do monte de gente como um aquecimento em visão infravermelha) – mas engraçado que o senhor era particularmente silencioso, mesmo quando com o menino, como se de propósito as ondas deles se anulassem aos meus áudios secretos.
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18 07 98
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VI 8


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+ ou - 7h... Manhã escura, quase chuvosa e o jacarandá volta a chorar, mas só um pouquinho. Passa uma senhora, cabelos provavelmente tingidos, cortados curtos como um trapézio invertido, de topete. Anda em linha reta, objetiva mas muito maciamente. A calça parece ser de moletom, cinza, mas o resto parece mais social do que de-parque: dois sapatinhos pretos de salto baixo, uma camisa preta elegante, um lenço ou echarpe estampada por trás do pescoço e sobre o peito, e a mão esquerda encosta no corpo uma bolsa também preta com seu fecho dourado tendo as alças sobre o ombro. Me pergunto o que faz aqui, não parece passear (o olhar é baixo, pensando em sabe-se lá o quê, talvez em algo objetivo e macio como seu andar), parece usar o parque como travessia de um ponto a outro, instrumento de destino.
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(Hoje são tantos relatáveis... Mas mantenho a religião de apenas um por dia.)
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(Deus, como é que eu não vi, não é jacarandá nada: é um ipê! um ipê-roxo em sua plena florada de inverno.)
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24 07 98
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VI 9

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Domingão, sol (ameno) do meio-dia. Lotado. As pessoas já não passam, estão em passeata. Grupos de homens, mulheres, solitários, bicicletas, crianças, carrinhos, cachorro de todo tipo, nas coleiras, policiais de motocicletas, de carro, pássaros, muitos casais, o amor em alta. No meu camarote um homem está; encosto-me num tronco ao lado e escrevo em pé. Lá pro lado oposto à costumeira avenida vejo o fundo do palco e por entre as árvores a multidão da plateia; a música não distingo – primeiro um batuque, deve ser um conjunto (agora tocam Barracos do Gil, mas não se trata dele). [O homem do meu camarote saiu, re-aposso.] (...) Levanto a vista e dou de cara com um rapaz. No meio-fio ele está de costas pra cá, a camisa branca de futebol estampa um 10 preto, não consigo ver o time, provavelmente Corinthians ou Santos. Tem o pé direito no pedal e só o esquerdo no chão; de pé, as pernas trançam os canos da bicicleta curiosamente. Cabelo curto quase careca, bermuda cinza, meias e tênis. Parecia olhar a vista, a correnteza da gente – daí chegam outros dois ciclistas e, mais do que assistir à via, ele esperava. Os dois passam por ele, trocam três palavras, os segue; somem no vigor da profusão da gente. (O show acabou. – silêncio de lá mas por essa omissão se intensifica a zoeira daqui) Venta, sol, nem frio nem calor, dia fantástico. [O homem que estava aqui era magro e barrigudo, uns 70 anos, pernas finas, sem camisa, cabelo ruivo e ralo. Assentava no lugar que eu sempre ocupo, mas pro lado de lá – de frente pro fundo do palco, de costas pra “minha avenida”. No resto do banco a camisa dobrada e o restante do jornal que lia. Na cara uns óculos escuro-alaranjados.] (Aquilo de um só relato a cada dia é em termos. Só aqui já foi o rapaz futebolístico, o homem do meu banco, fora um pouco do parque... De outras vezes também o parque, a árvore, e não só uma pessoa mas um grupo. Só se a religião de cada dia se cumpre não a um só relatado, mas a um só espírito, abrindo a janela dos sentidos diante tantos milhares de minúcias relatáveis.) Tudo está muito agitado – vale dizer mesmo: vivo –, até insetos inusitados despencam, e galhos no meu cangote.
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26 07 98
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VI 10

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O sol sobe lá por trás mas ainda não bate aqui. Quando eu tusso ela me olha e volta ao trabalho: é uma mulher lá dos seus 30 anos, usa calças e boné cinzas e uma camisa de mangas compridas, de tecido mais grosso que fino, verde, um verde vivo na verdade mais do que qualquer folha à vista. Varre as duas esquinas da área de bambus, daí a pouco chega uma amiga (ou só colega de trabalho) trazendo um carro-cesto-com-rodas em que põem os restos (os rastos) deixados pelas pessoas e várias folhas mortas. Ambas comentam não sei o quê que faz a segunda abrir um sorriso. Quando varrem levanta um pó que as cerca nas pernas no mínimo até os joelhos. No bolso direito do camisão verde da primeira, ela leva um embrulho ou alguma coisa do gênero – parece enrolado naquele tipo marrom de papel (kraft) ou, o que é menos provável, um punhado socado das folhas.
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27 07 98
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VI 11

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Manhã escura, 6 e pouco, a luz dos postes ainda vale. (Mas, parece, fará dia claro.) No caminho o corredor dos bambus é um túnel; mas na pista há bem mais gente do que eu pensava.
.......... É uma mulher, lá com seus 20 a 30 anos, magra e usa uma camiseta larga, branca, com alguma propaganda atrás em vermelho e preto. Tênis, meias brancas, as pernas de fora parecem nuas de tudo, provavelmente está de calção mas não dá pra ver, o “camisão” encobre. Os cabelos pretos são compridos, agora numa trança enxuta seguindo a coluna até além do meio. Duas fivelas coloridas sobre as têmporas (...) – ela acaba de voltar e não são fivelas coisa nenhuma: apenas um elástico bem na raiz do rabo-de-cavalo. O camisão é mesmo largo, como se fosse do seu pai gordo e alto. Ela para bem na reta à minha frente e ainda no trote da corrida vira-se pra onde veio e observa ou parece esperar alguém. Então entra pela alameda dos bambus, sumindo. No pulso direito tinha um relógio preto e fino.

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Outra mulher. 40/50 anos. Toda de preto, menos tênis e meias, brancos – por baixo da camisa preta se divisa a barra de outra camisa também branca. A calça preta é justa, dessas pegadas, contornando a pele. Tem uma pochete de couro marrom sobre a cintura, abraçando as camisas; sobre a bolsinha pende uma toalha pequena, cor-de-rosa, que balança conforme ela corre em marcha lenta. Através do pescoço um lenço rosa-avermelhado e os cabelos loiros, crespos, vão até abaixo da orelha, balançando como a toalha. Conforme vai, respira ritmada, soltando pela boca o ar em forma de duas bolas rápidas nas bochechas.
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Este aparece entre os bambus, cada vez mais se iluminando, é um homem negro lá com seus 40 e tantos anos, na cabeça um boné azul-marinho com algo em branco escrito, uma jaqueta preta encobre a camisa de listas horizontais pretas (ou azuis) e brancas. Sapato (tênis) acho que também preto e a calça é bege, mas “social”. No braço esquerdo erguido leva pendurada uma mala (parece de pano) estreita e preta, também com qualquer coisa em branco escrita. Às costas carrega uma rede com um batalhão de bolas coloridas de vários tamanhos; está na cara, é o seu vendedor.
.......... Agora, claro, a luz dos postes já era, e a luz do dia clareia mesmo.
.......... (Três num só dia. A religião e suas mudanças.)

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28 07 98
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VI 12

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Ele de cabelos brancos, calvo em cima, ela loira, lisa até os ombros; ele uns 60 anos ela uns 30, talvez pai e filha. Literalmente marcham. Acelerados, no mesmo ritmo, os quatro braços retos vêm e vão, formando o traço de quatro meio-círculos que se projetam. Dois calções pretos, dois pares brancos de tênis, os mesmos peitos estufados. Ela de blusa azul manga comprida, ele de mangas curtas, clara; ele alto, 1,85, 90, ela lá com seus 1,65.
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Um homem, 65 anos, cabelo curto e grisalho, calvo em cima, 1,85 num corpo largo com a barriga saliente por baixo de casaco em dois tons de azul – azul-escuro no tronco e parte dos braços, azul-piscina no resto deles. A calça é verde-escura; tênis brancos. Anda, sem pressa, pouco a pouco levanta e ergue a cabeça, o olhar acompanhando. Talvez masque um chiclete ou uma bala, parece ir pensando muito em alguma coisa.
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Uma mulher seríssima, calça-moletom azul-cinza, tênis brancos, a camiseta branca revela um tronco entroncado e largo, os seios contidos num sutiã que resiste. Olha pra baixo, a menos de 45º à frente, e os cabelos pretos, curtos, estão amassados atrás, formando quase um ângulo reto, o que, junto à cara inchada, dá a visão da sua cama de onde saiu há pouco. A mão esquerda parece comprida daqui, indo e vindo na linha da andança, esguia se alongando. A direita segura a ponta de uma coleira vermelha que tem na outra ponta um poodle branco, seguro pelo peito e tronco e, ao contrário da dona, parece desperto, feliz da vida.
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Um senhor, elegante, 75-80 anos, pouco cabelo, branco e curto (mas cortado preciso), camisa social azul-clara, gola branca, as mangas dobradas até o meio-antebraço. Relógio no pulso esquerdo. A calça, social e de cinto, é verde muito escura; sapatos pretos. Apesar do traje não está perdido e ninguém pergunta; pratica a própria caminhada como os outros. Sério; tranquilo; o olhar mais ou menos baixo, voltado mais a si mesmo. (...) Reaparece caminhando de volta. Passa a mão pela face direita... tem um óculos pendurado no vão da camisa aberta até o terceiro botão... no bolso traseiro e direito da calça, sobra a ponta de um dobrado e branco papel.
.......... (As mesmas garis do passado executando o seu trabalho. Há pouco, o mesmo vendedor de bolas chegou de novo.)

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29 07 98
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VI 13


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Manhã prateada. Ela é uma mulher andando firme, provavelmente no ritmo do que ouve pelos pequenos fones nos ouvidos. Da cintura pra baixo está toda de preto, tênis e uma calça de tecido elástico. Em cima um casaco verde, nem escuro nem claro, fofo, com o zíper fechado. Na cabeça um boné branco, por cujo buraco de trás sai o rabo-de-cavalo loiro, curto e crespo. À mão esquerda leva algum papel amassado ou outra coisa branca inidentificável.
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7 08 98
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VI 14


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Um jovem, 20 e poucos anos, cabelos curtos, pretos, penteados, bem apegados à cabeça, usa tênis e um moletom (cima e baixo) cinza com algo escrito nas costas. Passa de cabeça baixa andando acelerado, à mão direita um caderno preto e uma caneta preta destampada.
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Um casal, ela lá com seus 60 e tantos, ele com seus 70, ela de calça marrom justa, tênis, meias, um jaquetão estampado em que predomina o roxo. O cabelo castanho escorrido até os ombros emoldura uma cara despreocupada e relaxada de já que estamos aqui é assim mesmo e a mão direita segura a ponta de uma coleira vermelha que a liga a um cachorro todo preto e pequeno, de pelo arrepiado e anca grande, sendo mais alto atrás que na frente. O homem anda quase marchando numa tentativa séria de esforço; calção, camiseta de listas azuis, tênis e meias marrons, a cara sisuda arremata o corpo que se mantém lado a lado ao dela.
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Uma senhora, 60... 70 anos, uma malha leve, estampada, azul-claro e branco, tênis, uma calça também leve, roxa (roxo-vinho), óculos escuros, cabelos loiros curtos penteados pra trás balançando conforme anda – anda firme em linha reta, olhando reto, e o tronco reto se inclina pra frente como se cumprisse o embalo final de uma ladeira, indiscutivelmente se dirigindo ao fim.
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8 08 98
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VI 15

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* .... Levanto a vista e conforme me aproximo a visão se delineia: um homem sentado no meio-fio, de perfil, os pés no asfalto da rua, a linha da calçada está inclinada à esquerda, passa por baixo dele e se perde adiante. Usa um macacão inteiriço, cinza, cinza-rato, os cabelos grisalhos são curtos cortados a máquina e não é possível ver seu rosto: está enterrado nos braços cruzados sobre os joelhos. É magro, está entregue à posição mas o sentimento que parece viver ali não permite que o termo entregue seja relaxado. É um quadro pronto de Van Gogh ou de Millet. Atrás dele há um outro homem: de frente para a direção em que eu venho, está sentado no chão, as costas no tronco de uma árvore, as pernas dobradas com as plantas dos pés paralelas pisando o chão, cada antebraço sobre cada joelho, as mãos entrelaçadas à frente. É mais jovem que o outro, negro, usa um bigode ralo, o mesmo tipo de macacão, um boné preto, um colar (que é um cordão preto) com uma cruz prateada, no pulso direito um outro cordão preto como pulseira. Seu olhar vai aonde eu venho mas me atravessa à altura da barriga; não pisca e se entrega no que pensa. Como o outro, se abandona ao não-movimento, mas o estado de espírito talvez desiludido diz que algo nele ou ele todo está tenso. À esquerda é o muro compacto coberto pela trepadeira; à direita, na rua, um caminhão aparentemente vazio com uma escada lateral pendurada – pelo jeito, de onde vieram; provavelmente funcionários da Luz ou da Água. O seu caminhão quebrou ou indiscutivelmente tem que esperar por algo... mas algum imprevisto parece ter ocorrido. A suspensão das suas tristezas tem uma densidade que se contrapõe ao dia bonito de sol, que, no entanto, no momento mesmo em que se passa pelos dois, carrega um cheiro revelador de chuva, combinando com a sensação de prenúncio que evoca o estado parado dos homens.
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12 08 98
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* Vestígio de exceção: não do camarote no Ibirapuera mas da calçada que rodeia a Hípica.

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VI 16

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.Sabadão mas nem tão cheio. Lá atrás, no palco, testam o som para o show de amanhã do Caetano, às vezes sai um grave alto como na boca do Inferno, às vezes, como agora, é só o som do rádio (infernal) às alturas. Antes de me pôr ao vestígio, me meto a ler uma matéria de jornal que trouxe mas já no segundo parágrafo uma moça me interrompe pedindo a atenção para uma pesquisa de crediário. Aceito, o burro, e fui respondendo às perguntas automáticas entre um mau humor mastigado e o tempo que não passa [e a matéria, ainda pendurada na mão, é sobre o filósofo Mo Tzu e sua crença no amor universal]. Ela negra – 30 anos? –, 1,70, 75, calça jeans e camisa comprida (nesse dia de sol aberto), simpática mas remete a um autômato de filme B futurista [e há pouco vi: há vários deles, com suas pastas e papéis, andando em pequeno bando ou à solta, lentos e possuídos como animais caçando], ela também tem sua pasta, três papéis coloridos (exemplos de propaganda) e por trás da voz treinada e cerebralmente lavada como uma fera de circo, existe um olhar entristecido que não me fita muito; nos pés dois sapatos-tamancos de couro em dedos sofridos que de vez em quando eu encaro e me fitam muito quando abaixo a cabeça se impacientando. (Durante a entrevista bucólica e financeira ouve-se um estrondo e um grito, bem na nossa frente na pista uma menina caiu da bicicleta não sei como, quando vemos já está no asfalto; um arranhão ou outro, no máximo um roxo, não foi nada, os amigos a ajudam.) Afinal finalizando, a pesquisadora dá tchau, pede desculpas pela interrupção e me deseja sorte; retribuo, o burro, tentando voltar à matéria é claro que não consigo e me entrego ao vestígio.
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Do corredor de bambu surge um casal e três filhas (supõe-se), não sei se trigêmeas mas pode ser, lá com seus 7 anos, três vestidos idênticos, cor-de-rosa enxadrezados em branco, bonitos e claros no verdor iluminado do parque; os cabelos são escuros, frisados, soltos até abaixo do ombro; seis chinelos de couro. A mãe usa bolsa e um macacão leve (acho que azul-claro) com uma camiseta rosa (mais escuro que o dos vestidos); o cabelo como o das filhas só que preso num rabo-de-cavalo. O pai de sapato calça e cinto, camisa de botão, mangas curtas, as cores neutras, pouco chamativo. Atravessam a pista e sobem a calçada, entram na grama e param a uns cinco metros daqui do banco; o casal olha em várias direções, procurando o rumo certo, daí decidem e passam por mim, prosseguindo praticamente na mesma reta em que vinham, mantendo a linha da Praça da Paz.
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Um casal, jovem, ela de camisa elegante, branca de mangas cavadas, de saia e sapatos, ele de calça, cinto e sapatos, a camisa é de mangas curtas, botões e gola. Vêm pela grama de mãos dadas, muito calmos, se aproximam de mim lentamente sempre olhando pra cima. Estão atentos a um canto de passarinho na copa da árvore. Ele mais encantado que ela, ela o acaricia com a mão direita, passando suave no seu antebraço, lenta, do cotovelo até o relógio. De repente ele fala “é ali, tá pra lá”, e seguem às minhas costas, pelo jeito enxergando a origem do canto.
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Um homem – 30 anos? –, calça leve, cinza, sapatos de sola baixa bem gastos, a borda da camisa por baixo do jaquetão de couro preto com alguma estampa nas costas; cabelo curto mas nem tanto e cavanhaque pretos. Anda só na pista, da esquerda à direita, mas seu caminho é troncho, todo quebrado, em segmentos e pequenas curvas às vezes parando. Principalmente quando para, parece olhar outras pessoas paradas ou alguém ao longe e fala sozinho. Está zangado, ou pelo menos muito encanado, amarrado numa questão insolúvel. Quando chega mais perto vejo que tem folhas na cabeça – pequenas e secas –; segue no caminho da direita e some de vista, sempre sem sair da pista apesar das quebras.
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Uma jovem, 20 e tantos anos..., chispa de bicicleta, esquerda-direita, camiseta branca sem manga, calção marrom (de jeans?) apegado, e cabelos crespos castanhos presos num rabo-de-cavalo com fivelas. Nos pés dois tamancos simples, dois pedaços de pau com tira de couro entre cada sola e o pedal; fico pensando imediatamente como é que eles não caem.
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(Só agora vejo, na outra ponta do banco deixaram um palito de picolé usado. Restos de chocolate.) (Ao escrever tudo esse hoje, mil vezes olhei-não-olhei o movimento, é impressionante a variedade de tipos, alto baixo fino largo, os gestos, os jeitos, os ritmos... cortes de cabelo, roupas, peles, os coloridos... tem até semelhanças mas absolutamente nada se repete.) (Uma luz do sol espetacular.) (Volto ao Mo.)
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15 08 98
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VI 17

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(Um casal no meu banco, passo andando, é um vestígio dos rápidos.) Na esquina dos bambus, sobre a calçada, dois soldados e duas mulheres, civis. Formam um quadrado, de quina com a esquina, cruzados: cada mulher de frente para a outra, cada soldado de frente para o outro. Eles são brancos, têm boinas, casacos, botas, apesar da boca escancarada da tarde (apesar de um manto translúcido de nuvem contínua, como uma gaze), os tecidos de verde-musgo, verde-claro e preto. Elas de cabelo e pele morenos, saia, sapatos, blusa, cabelos soltos, domingo de passeio chique. O soldado oposto à esquina beija as duas faces da mulher à sua direita; ela conversa, um dedo encostado na boca, sorri. A outra dupla também conversa; é uma só conversa, dos quatro. (Passando pelos bambus-túnel, muitos sons; um homem fala espanhol com uma mulher, alguém exclama alto ao chutar a bola, pais e filhos desviam as bicicletas, um casal vem, ela de fone nos ouvidos, ele não, cães respirando nas coleiras. Adiante três homens, um senhor, dois mais jovens, parados nas bicicletas, voltados para dentro de um pontudo triângulo isósceles. De olhos puxados, falam japonês (ou coreano ou tailandês... não parecem da China), o jovem da ponta distante falando alto – tagut'ô-taguruó! – sem se importar com a atenção que chama ou deixa de chamar. Lá fora, já na rua, à espera do farol azul, lá estão os três, tagarelando, ao meu lado, como se quisessem pôr à prova, nós somos japoneses.)
.......... [Na ida, na avenida, um mendigo andando. Muito sujo, barba e bigode e cabelos grisalhos. Um par de sapatos esculhambado, uma calça gasta, dois sacos brancos na mão esquerda. Sobre o tronco muitos panos, andrajo sobre andrajo, sobre todos uma jaqueta, bem aberta, senão não caberia. Monstro futurista, ente fabuloso, mamute bípede. O olhar, toda a cara, à procura para baixo, circunsisudo. / Na volta, na mesma avenida, mas em outra altura, na outra pista, um outro mendigo. Roupas normais, camiseta, calça... mas gastas, imundas. Parado numa beirada, apoiado numa mureta, a ponta do pé direito apoiado à esquerda do esquerdo, canela cruzada sobre canela. Os cabelos finos, calvo em cima, na fronte esquerda uma mancha nítida, um galo ou talvez só sujeira. Olha para baixo, medita muito, afundando uma linha pensativa entre os corredores e sons dos carros.] [Já numa avenida mais próxima de casa, mais distante ainda do Ibirapuera, um senhor branco de pele e cabelos na ilha divisória do centro. Anda, está de terno e gravata preta, um terno cinza, mais ou menos fino, amassado, na cara enrugada e centrípeta uns óculos de armação grossa e negra como um branco do Mississipi, vem-me sem que eu perceba o pensamento, está vestido para a morte.]

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23 08 98
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VI 18

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Um frio fechado, um céu chapado ameaçando pingos. Tudo parece tranquilo ou não sei se sou só eu. Pessoas de bicicleta, jovens com roupa não-de-parque talvez vindo das exposições no MAM ou na antiga prefeitura, um homem com um afghan muito claro de boca e pontas de orelha pretas, um homem e uma menina patinando juntos de mãos dadas, dois homens e uma mulher o do meio com a camisa do Vasco segurando a coleira preta (esticada e oblíqua como a faixa branca da camisa) de um beagle apressado, carros de polícia passam em marcha lenta bem lenta e voltam, duas mulheres caminhando maciamente a da direita com a mão direita no apoio de um carrinho de bebê – que roda levando um, todo vestido de vermelho vivo, inclusive o capuz –, um menininho de gorro marrom na sua bicicleta parada fala piiiiii!, outros cachorros, outros filhos, de skate ou à solta, outros grupos de bicicleta, um pai fumando, sons ao longe do parquinho e de três peladas (de futebol) me cercando como um triângulo, o vendedor de coisas numa caixa de isopor na esquina parece chegar ao fim e vai embora, um cheiro de percevejo, a meninazinha vem vestida de vermelho (com tiara vermelha) acompanhada pelo pai ao lado da mãe, teoricamente um bruta tédio, mas apenas tudo prosaico (encantadoramente?). Os pingos passaram da ameaça ao assalto, depois desistiram.
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28 08 98
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VI 19

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Nem de longe revejo o camarote à espera: passo ao largo com minha mãe, vamos direto à paz da praça cheia de gente, é domingo de show, especial este, em comemoração à independência datada no dia seguinte. Dia chapado, céu cinza e branco, mas sobre o palco um arco-íris inflado com notas musicais. Impossível relatar só um, dois ou três vestígios específicos; ante o caldeirão de nações musicais que viriam no palco, lá embaixo o costumeiro caldeirão de nações onde estávamos – colorido de roupas de peles cabelos cadeiras ciclistas cachorros vendedores (algodões-doces-refrigerantes-água) distribuição de salgadinhos fumaças de cachimbo cigarro walkmans temporariamente desligados. Orquestra e coral, maestros Julio Medaglia e Abel Rocha, Fortuna e canções judaicas, dançarinas nipo-coreanas em dança do leque e tambores, gospels do Harlen's Ten, Edson Cordeiro e um fado, até uma minimissa simpática do padre católico que esqueci o nome, apresentações do Fagundes. Lá no início uma Glória sublime de Vivaldi sobrevoando-nos; no batuque coreano de repente entrou um baticum brasileiro (surdo, caixa, pandeiro, tamborim, cuíca...) daí honestamente chega deu dó, talvez maldosamente – a microfonia do samba parecia mais alta – mas seja por microfone seja sem, deu vontade de que as coreanas tivessem uns braços de coreonões, pra se igualarem à levada do samba que quase submergia a levada delas; quanto ao Harlen's Ten basta citar a exclamação da moça próxima de nós assim que os anunciaram: ah, esse é que é bacana, né? Bota bacana. No fim, após a orquestra e o coro com o hino paulistano do Billy Blanco e a volta de quase todos na sempre giganta Aquarela, soltaram um monte de balões das cores do arco-íris falso e, conforme iam, o que na saída parecia muito foi se tornando pequenino no céu agora imenso, uma revoada de cores imigrando ou o pedaço ao vivo do pontilhismo de um quadro.
.......... Contrariando a impossibilidade específica, na saída uma mulher tão relatável: pouco depois do palco, a multidão se ramificando entre as árvores, ela sentada no chão, de frente pro fluxo, as costas a um tronco, muito seríssima (não mal humorada: serena), como sintonizada com algum som do Espaço, branca clara, grandes óculos escuros, lenço à moda antiga cobrindo quase todo o cabelo, calça cor-de-rosa e justa dessas curtas até um pouco acima do tornozelo, pernas flectidas e paralelas como os pés com as plantas no chão, as mãos uma sobre a outra apoiadas e soltas sobre o peito, 50 anos? 60? Imóvel, repousada no seu momento. Nem respiração aparente, na verdade até poderia estar morta.

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6 09 98
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VI 20

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Abdico do banco, a vista hoje é ambulante. Bicicletas, pessoas, cachorros, nada de novo debaixo do sol. Que sol? O inverno teimoso se estende sobre a coitada primavera, o céu é uma casca (ainda assim colunas de luz fendem as nuvens, mas só de vez em quando e ao que parece cada vez menos). O que de relatável? Um boxer com sua dona senta no banco em que a dona senta e tem uma cara engraçada: quando fecha a boca, o dente inferior esquerdo fica de fora. As pessoas não parecem tantas; além do feriado esvaziando um pouco a cidade, elas se repetem conforme as voltas que damos, vamos nos reconhecendo ao nos depararmos (as pessoas inextrincáveis, ou meu olhar obtuso). Uma mulher bonita vestida de preto anda com seu filho ou sobrinho ou sabe-se lá, olha para ele e sorri; as pessoas ao passarem sorrimos; ele tem uns 2 anos, uns 40 cm; usa boné; apenas anda e o andar é um acontecimento; sereno, tranquilo, neutro – anda. Duas vans cheias de japoneses, na maioria crianças. Palcos se preparando para shows. Quando o sol sai o verde tem um tom fantástico. (Contrariando as previsões, as colunas se alargam.)
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10 10 98
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VI 21

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Que quanta gente! Segunda-feira de feriado, dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, helicópteros, balões coloridos, patins, vendedores de algodões-doces, cata-ventos, comidas, brinquedos, o dia encoberto mas claro (as nuvens devem ser mais finas do que aparentam), pra variar muitos cachorros, presos e soltos, (nenhum gato, nenhum rato – provavelmente muitos no subsolo), música em alto-falantes, apresentação num palco, malabarismo no alto de uma trave, artes, filas pra pegar não sei quê, polícia, grávidas, grupos, casais, pessoas sozinhas, os ciclistas sofrem e preocupam em tanto atravanco, e, é claro, muitas crianças (uma, um menino numa minibicicleta, caiu com ela de chapa numa poça). Brasileiro é engraçado. Indefinidamente infinidade de tipos. Uma sensação de estar no mundo, não em São Paulo, não num parque. O Brasil é uma grande Nova York. (Como se ela não fosse grande. Ao lado do Brasil é pequena.) Só que pobre. (e rico) – é preciso reiterar assim entre parênteses. Muito. (?) – é preciso duvidar assim igualmente. Os morenos, os baixos, os magros, os brancos, os muito rosas, os pretos, os cabelos compridos, curtos, enroscados, os barrigudos, as barbas, as carecas, os ruivos, os judaicos, os aturcaiados, os mulatos, a mulata, os guizos, as multiplurirreligiões, as crianças cosmopolitas e Nossa Senhora, passam em movimento.
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12 10 98
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VI 22

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Uma luz translúcida de cima – escoada pela atmosfera depois pela copa das árvores (e também pelos meus óculos escuros). Uma moça passa de cabelos soltos, “bustiê” azul-escuro, calça preta, tênis brancos e uma blusa também branca na cintura; olha as horas e prossegue sua caminhada quase acelerada. Ao acabar de reler as frases passadas, ouço um rangido e bem à minha frente passa uma senhora de moletom verde e uma faixa-tiara rosa; puxa um grande galho de árvore que raspa suas folhas e as ramificações pela pista; tem os passos miúdos e ritmados balançando à esquerda e direita, usa uns óculos fundos; parece uma cena de Fellini; arrasta o galho atrás de si e se alguém dissesse que não tem consciência disso não seria tão grande a surpresa; limpa a pista ou faz algum exercício que não capto ou é louca. Olho pra vê-la já à distância indo embora e lá ao seu lado na direção contrária vinha um filho que leva um tombo tropeçando de frente; a mãe o acode e levanta. (Essa luz está mesmo translúcida – claro que fica mesmo bonito pelo tom dessas minhas lentes escuras, mas sem lente nem nada é um dia e tanto, um quase meio-dia não rigoroso, parece manhã.) À esquerda, a oeste, lá no parquinho, a luz incide de chapa na chapa de um escorregador – será só nessa exata linha que se vê ele assim “espelhindo”? –, parece uma placa de neve coruscante, ou o monolito de 2001, só que branco (muito branco), ou um prisma incandescente – depositado no parque, não se sabe por quem, não se sabe pra quê. Cinco jovens vêm lá de “nordeste” em pernas de pau; ajudam-se a descer a calçada e subir a outra, atravessando o asfalto da pista como se fosse um rio perigoso; parecem seres alienígenas numa invasão pacífica (em silêncio, como sem querer chamar atenção, como se as explorações fossem um costume diário). O parque hoje parece cheio de coisas sem limites – penso no quanto eu perdi ao escrever de cabeça baixa. (O tempo parece firmar, depois de tantos dias – semanas, meses – de cinza e friagem (e talvez nesse se-firmar o sol castigue, no peito rigoroso do verão).) Enfim, fixo o limite, fim. (Ah! atrás de mim, no outro banco (com mesa) a uns vinte metros, uma mulher faz ioga ou medita à sombra (está de pernas cruzadas sentada sobre a mesa); imóvel, os braços relaxados, as palmas da mão pra cima. Entre a minha visão e ela uma mosca dessas verdes mantém-se suspensa, muito menos imóvel do que a mulher que medita.) .... já meio-dia e 28

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21 10 98
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* Os jovens passam de volta, ainda silenciosos e calmos, mas com os pés no chão, as pernas de pau sob os braços, muito humanos.
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VI 23

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O caminho dos bambus parece um túnel, a receber alguém, a qualquer hora a despejar alguém; ninguém passa, não vai nem vem por ele; só uns ou outros pela pista, cruzam a sua entrada. Tranquilidade. O dia de nuvens mas muito sol.
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Pássaros gralham. Um casal de namorados conversa no banco e mesa a oeste, na direção do parquinho. Quando trios ou duplas passam, conversam qualquer coisa; não distingo as palavras direito, nem quero. Um som de avião. Os carros ao longe, uma sirene, outra. Outro som de avião.
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O casal se abraça, um gari colhe folhas, um menino é bem empurrado no balanço lá à distância, risca os 180º de uma meia-lua que quase roça a grama.
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O sol está bem a leste (este leste do banco, em relação ao túnel, à pista, à minha cabeça sobre ele). A sombra de uma árvore se projeta até o pé da outra, as duas se unem – assim imaginariamente, por essa sutil ausência (da luz dentro da sombra). [quero dizer essa sutil presença da luz dentro da sombra]
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Uma chuva de ciclistas passa agora.
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VI 24

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Manhã, 6 e pouco, o sol vem vindo (ou melhor, vamos a ele) e vai derramando no chão e nas árvores um laranja suave mais-lindo-do-mundo. Poucas pessoas, a cidade esquenta as máquinas, certamente já quente em alguns lugares, em outros sempre, não dorme. Uma mulher grisalha passa com um sorriso estampado na cara, levanta uns pesinhos, alternando os braços, regularmente.
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VI 25

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A primavera ainda está amordaçada em algum lugar. O céu branco-chumbo, o frio duro. (não sei como a minha mão ainda tem a cara de pau de escrever, e cada nádega de se sentar) Apesar de tudo a luz ilumina bem as coisas (parecem estalando como de dentro daquele espelho retrovisor dos carros) e os verdes estão tão redivivos pela chuvada de ontem.
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Dois homens altos, em alto e bom som, se cumprimentam simpaticamente ao se cruzarem – ah que prazer em te encontrar! – felicidades! – mas ao mesmo tempo por trás de tanta consideração não querem muito papo, mal param na direção em que iam e seguem aos opostos. Lá do outro lado uma mulher também cumprimenta um trio que a atravessa, e no centro, logo aqui quase à boca do túnel, outra mulher cumprimenta outro homem quando se cruzam – também simpaticamente, esses falam mais alguma coisa, a respeito de não sei quê que aconteceu ou ainda vai acontecer, mas também não param, ela some entre os bambus, ele segue com os que o acompanham.
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Uma revoada escandalosa de uns dez a quinze passarinhos nervosos vai e volta sobre as copas, quase as raspando, mas mais no alto.
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Um dos altos passa novamente, no ritmo rápido da caminhada as mãos enormes, espalmadas, sobem e descem quando flexiona os braços, a cabeça é pequena e grisalha, uma barriga valente, as pernas finas saídas de um short curto; bem disposto e cômico.
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Um vira-lata vem acompanhando uma moça, parecem conhecidos até que os passos de um e outra se distam, ele olha pra baixo, continua caminhando mas mais lento, ela vai embora. Um casal surge do bambu-caminho e a mulher logo o olha e ele a ela; esboçam uma aproximação, ele dá dois passos, ela inclina o caminho para ele, ele para, ela se atém à órbita do marido e os dois se afastam, sem que ela e ele (mulher e cachorro) desistam do olhar por um momento. Com seu rabo comprido e estabanado ele se senta no meio do caminho e por um tempo fica olhando. Vai até o lixo, cheira, vai e volta, agora está andando lá para a direção de onde veio com a sua “primeira dona”.
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Muitas outras pessoas passam, naturalmente. Quando as palavras iam se sentindo um tanto embromando com aqueles pássaros escandalosos, reapareceu o homem alto e chegou o vira-lata; mas agora acabou, fim. (Esse verde esparramado na grama, entre a terra entre as árvores e nos troncos, está de fato “um luxo”... um fenômeno.)
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* O cachorro, como já se era de esperar, desapareceu.
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* Na Praça da Paz uns quatro jacarandás reunidos pingaram de azul-lilás o verde e marrom-escuro do chão úmido.
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4 11 98
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VI 26

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Aqui não tem galos. (Um galo sozinho não tece uma manhã – João Cabral de Melo Neto.) Nublado, mas o céu teima em ser azul nesse comecinhozinho de manhã. Um azul opaco, meio tímido, tentando se encharcar nas nuvens. Céu azulado, inteiriço e baixo. (Lá fora não se vê o topo de alguns prédios. (e como já se disse, aqui não é nenhuma Nova York, nenhuma Manhattan pra ter prédios tão altos – ou seja o céu está baixo mesmo))
.......... As mesmas garis do passado. – serão mesmo as mesmas? Enquanto ouço suas vozes conversando – você acredita tudo nas conversa dele... / ele falou?, eu que falei, ah sim –, vêm varrendo a vala da margem daqui, seguem embora – a leste. O túnel de bambus vai lançando cada vez mais pessoas como bolhas de sabão por um sopro, só que não tantas.

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O azul desistiu. Branco – branco branco branco – sujo; o branco-chumbo – uma tela branca muito pintada de branco. (muito em quantidade, em excesso, de tinta, de peso)
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Cada vez mais cheio; o parque é um planeta onde os seres vão acordando aos poucos. Um homem surge do túnel, para no meio da pista, ereto, olha a oeste, a direção do caminho a seguir. Respira, olha o relógio, o relógio o caminho o relógio, aperta botões e dispara – um andar em marcha, os braços alternando, tudo sincronizado. A camisa colorida de faixas horizontais e finas vai diminuindo quase imóvel.
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Passa um homem lá dos seus 50 anos, caminha acelerado de moletom colorido e tênis e tem um tronco anormalmente entroncado: a cabeça inclinada à esquerda com o pescoço escondido, parece ter levado bem no cocuruto um murro de um gigante (e o médico do seu reino mágico lhe exigiu andanças no Ibirapuera para recuperá-lo... – maldade).
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Quando levanto a vista um senhor está parado de perfil bem ao lado do ipê, olha com neutralidade a sua frente e os dedos da mão esquerda lhe envolvem a garganta; na mão direita olha o relógio de pulso, a abaixa de volta e continua assim imóvel e se sentindo pulsando. (Logo quando o olhei ele me devolveu o olhar por um segundo e, imaginando um pouco, era como se dissesse socorro, estão me enforcando!, sendo sua própria mão a do assassino – até que o atentado pareceu ser só o normal autoauscultamento.)
.......... (Agora, depois de uns 15 minutos, ele reaparece e repete tudo no exato mesmo lugar. Dá uma sensação de volta no tempo, enquanto escrevo isso ele desce a calçada e se perde entre os bambus.)

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Uma mulher de grandes quadris (ou devo dizer: quadris grandes) passa com seus cabelos muito negros e o andar é pesado (mais do que o céu branco (que aliás agora está branco-se-iluminando, como se a luz o levitasse)) e os globos oculares parecem ter o mesmo peso, olhando pra baixo, só no metro adiante. Aliás, sendo bem verdadeiro, não é o andar que é pesado: é seu corpo nele. Anda até com vigor e leve, os passos macios ao mesmo tempo firmes no asfalto – mas os ombros cedendo, a dezenas de quilos que sabe-se lá de onde vêm, a coluna inclinada como se o alto se interessasse de um jeito pelo caminho e a bacia de outro (como se o alto fosse o coelho e a tartaruga o baixo); e como se tudo, coelho tartaruga ombros cabelos, apesar da desenvoltura dos passos, jogado dentro de um tanque ou celeiro – um monte de feno ambulante que é o corpo. Impressão maior pelo contraste com um casal que [alguém passa lá adiante com um perfume que vem bater aqui; levanto a vista pra caçar o exagerado mas daqui, sentado, impossível saber; pela distância, talvez uma daquelas duas que vão papeando] – impressão maior pelo contraste com um casal que logo atrás, a uns 4 metros, vão andando esguios e leves de tudo, muito altos, magros, e com uma tranquilidade nos olhos, como se olhando um infinito estabilizado, bem em frente.
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Uma mulher leva e se deixa levar pela coleira de um poodle minúsculo e branco. Ela vai satisfeita pela graça que ele produz, as pessoas passando olham e sorriem e ele tem o olhar agitado, se quebrando rápido em duzentas direções. Mas agitado mesmo são as quatro pernas miúdas, quatro manchas brancas que se misturam – dá a impressão de que se andar assim por mais meia hora, morre de cansaço.
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Definitivamente o sol vem abrindo alas, varando nuvens, branquidão ou chumbo. (menos por enquanto esse banco gelado com seu termostato ao contrário)
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O galo que não havia continua não cantando. (ele precisará sempre de outros galos)
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5 11 98
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VI 27

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Domingo sem banco, me planto na Paz para assistir ao Oscar Peterson. Quarteto, jazz, baixo, guitarra, bateria e piano. Não sei quantas centenas, as pessoas se aglomeram, sentam, escutam, se deixam levar pelo palco, a arte ainda interessa. Sol lascado, os fiapos de umas nuvens amenizam. Como o aspecto dos lugares muda com as pessoas; a praça antes verde agora cheia de pontos coloridos. Passa um vendedor de bolhas de sabão, nos envolve uma onda delas, estourando; uma vendedora também, tentando inventar moda – água refri, água refri, água refri... Depois da minha corrida para um lado e da andança deles por outro, eu e meus pais íamos nos encontrar ali – não nos encontramos. Vou ao entroncamento dos bambus por onde sempre entramos e lá estão os dois sentados no meu banco (que ninguém sabe que é meu) olhando a paisagem de que cada relato faz posse. Na velha pista de vestígios, passeatas de indivíduos, procissões para todos os lados, bicicletas-cachorros-etc. se entrelaçando. À saída uma filhinha comenta bem alto com a mãe, olha, um cachorro de boné, olha, aí atrás, sem nenhum receio adulto (receio de adulto) em falar alto, e a mãe e a dona do cachorro de boné sorriem.

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8 11 98
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VI 28

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Andando no parque. Passa – olha que coisa mais linda mais cheia de graça – uma menina mais-linda-do-mundo, lá com seus 6-7 anos, está descalça, leva os tênis na mão direita, na outra um picolé; a pele lisa é muito morena, um mulato dourado, os cabelos todos frisados, compridos até o meio das costas, castanhos, uma testa alta entre eles e os olhos; passa, põe os tênis no chão ao lado e se senta no balanço, então presta atenção ao sorvete enquanto se embala; tem com ela toda a serenidade e satisfação do planeta, no simples estado de ser que executa. A uns 200 m adiante, entre quatro grandes troncos, uma mulher faz uma espécie de exercício-dança-taichichuã – a camisa vermelho vivo destaca o balanço dos seus movimentos, pra lá e pra cá. A Praça da Paz tem uma porção de entulhos de folhas reunidas, parece que um esquadrão veio e desativou não sei quantas minas; mais adiante, perto da ponte de ferro, um esquadrão de quase dez garis (os desativadores das minas) juntam os punhados das últimas folhas. Na ponte uma mulher tira a foto de outra, depois riem do ato, descendo a escada. À beira do lago uma mãe com o filho-bebê no carrinho alimenta com alguma coisa vários cisnes negros de bico vermelho e um bando de pombos esfomeados; dois dos cisnes, por mais de dois segundos, formam lado a lado o perfil exato de um 22, como naqueles cadernos ilustrados de alfabetização. Na “Alameda dos Anos Dourados” – que só agora descubro se chamar assim – um sujeito de gravata e camisa de mangas curtas joga pão ou grãos de qualquer coisa a uma família de patos; eles o rodeiam e o encaram, se forem assassinos está em sérios apuros. É isso; no mais, um céu nublado que a qualquer momento arromba as nuvens para um sol mais-nítido-impossível, como têm sido, afinal, esses dias inclassificáveis de São Paulo.

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VI 29

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A sombra das ramagens desenha mapas na grama. O Sol não só ilumina: ri. Da Praça da Paz trago uma pena branca abandonada, quebrada em dois na ponta e arrepiada se desfiando; grande demais pra ser de pomba, esquisita demais pra ser galinha. No caminho da praça até aqui, atravessando o maior daqueles dois arcos brancos, vejo um menino se aproximando e grita ao vê-los: o arco-íris! – e corre por baixo deles. Vêm um outro menino mais jovem e uma menina o acompanhando; ela, realista, enxerga mais longe e grita: e olha o parquinho! – e sai correndo até lá; os dois, obviamente, a seguem. Aqui os corpos das pessoas passam de repente estranhos como matérias – as pernas longas, os braços-pêndulos, os ossos do lado de dentro os cabelos do lado de fora; a trilha sonora do suave trrrrr das bicicletas. Um senhor passa, abarrotado, anda rápido se inclinando à frente, os pés aparentemente nas pontas, como se estivesse assado e com pressa de se tratar lá em algum lugar onde a pista finda; na testa calva tem uma pinta central, como se fosse um assassinado a tiro na cabeça, de repente ressuscitado. Um outro trrr musicaliza – olho pra trás e é um cortador de grama, com uma daquelas máquinas de motor nas costas ligado à vassoura futurista. Três homens sem camisa, muito fortes, passam cadenciados numa linha de cooper; a moça que vinha andando, no mesmo rumo deles, abraçada a uma pasta e de bolsa, calmamente, fica os olhando encantada, ou assustada, ou apenas absorta na visão. Antes, no começo, enquanto andava antes de tudo isso, um bem-te-vi com seu peito amarelo e máscara de bandido pousou de ponta em ponta nos aparadores de rede; mergulhava a cabeça nos buracos e de dentro o bico trazia qualquer coisa, talvez minhoca, de qualquer forma guloseimas, e mastigava com gosto. Um trator escangalhado rasga o caminho dos bambus com seu barulho e vai sumindo na pista aonde se foi o homem ressuscitado, levando montados nele três funcionários de verde para alguma empreitada. A gargalhada do Sol, em silêncio, continua.
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VI 30

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O céu só uns fiapos de nuvens, o azul da manhã generoso oferecendo mais um dia. E o sol fielmente inundando os corpos (os corpos de todos, coisas e homens). O ar é fresco, leve, como se quisesse preservar tudo; os sentidos inocentes insistem em dizer que está completamente puro. Os cisnes brancos são maiores do que se pintam à distância; a gente passa por eles quase roçando e eles nem olham – parecem despertar, impassíveis, em paz. Um preto, depois outro, do mesmo modo, está com o pescoço mergulhado, parece morto ou cometendo um autoafogamento – mas a situação luminosa diz que caça alguma coisa, se alguma caça ainda há nessa água. Patos cinza, surpreendentemente bonitos e dignos como esfinges, comunitariamente estão parados, admirando a paisagem (mas parecem mais admirar a si mesmos a admirando) – pouco a pouco o congestionamento humano vai os empurrando para o lago. Do rádio um concerto para violino (número 3, Mozart, sol maior índice Köchel 216) musicalizou tudo. Na haste do meu óculos pousa alguma coisa, vou ver e é um inseto marrom e preto de espantosa beleza, como é que pode tamanha delicadeza. (Devo parecer exageradamente embevecido, bêbado de embasbacado; mas não é isso, é só o que se apresenta, apenas relato.) Passeei, corri, andei, são 7 e tanto mas cheguei cedo para pôr em prática meu plano à socapa: trouxe comigo dois escritos (não meus), devidamente plastificados (para aturarem minimamente o tempo e sua fúria), devidamente em papel esverdeado (para não poluírem tanto), devidamente munidos de tachinhas também verdes (pode-se constar o grau profissional da estroinice) – e os preguei em dois troncos. Um, o caule da primeira árvore à esquerda dos bambus (direita de quem de lá chega), o outro o da primeira à direita (esquerda de quem vem). A ideia é antiga, “antiga” já de umas semanas [o projeto seria, depois de invadi-lo no meio da noite vestido de preto como camuflagem, espalhar trechos e frases por dezenas de troncos de todo o parque. Quem sabe algum dia, com mais ímpeto bandoleiro, ainda o realizo; por agora ficam só esses dois textos crucificados]. A princípio ia pôr só um, mas acabei, maniqueísta, optando por um “pessimista” (que dependendo de quem lê pode ser magnânimo, instigante) e um “otimista” (que dependendo de quem lê pode ser simples tolice). São eles: ELEGIA 1938 – o supostamente negativo – do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual. // Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. / À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze / ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. // Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. // Caminhas entre mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. / A literatura estragou tuas melhores horas de amor. / Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. // Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan. O outro, o supostamente positivo, é do Guimarães Rosa, de LUAS-DE-MEL, e diz apenas: No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Ambos também devidamente nomeados. E agora vou ver se vejo alguém reparando neles, até quem sabe parando e lendo. Mas pelo que pude ver pelas frestas de quando escrevo, ninguém dá a mínima bola, e quanto mais gente chega parece que menos olha, ou veem e fingem não ver, ou é o completo desinteresse, ou têm muito mais o que fazer nos seus caminhos da pista – em que os papelotes são no máximo manchas em dois dos mil troncos às margens. Paciência; de qualquer forma me divirto como um doido, e certamente a muitos seria um, se soubessem. Espero. (...) Nada. (...) Mais um pouco. (...) Nada. Até esqueci o velho modo de ver as pessoas; elas são só um bolo que passa, ignorando Drummond, ignorando Guimarães Rosa. Vêm na pista, devagar, dois policiais de moto (atenção! veem os papéis, arrancam dos troncos, apontam seus dedos, me acusam, me levam preso sem discussão... – pelo menos seria acontecer alguma coisa). (...) Nada. Lá adiante – foi ontem que pensei nisso – há aquelas duas pilhas de grandes pranchas, provavelmente dispensadas de alguma não-construção; estão ali há anos; imaginei pôr um papel em cada: POR QUE QUE NÃO TIRAM ISSO DAQUI? Talvez ainda faça mais essa panfletagem excêntrica. Essa pode ser sem plastificação sem nada, só no papel em branco mesmo, pregado a fita crepe, a chuva que venha e o desfaça, o vento o sol a passagem das horas – o que não fazem com as pranchas. (...) Nada. (...) Acho que chega, não vou ficar aqui sempre, até que um santo milagre repercuta. Como também diz Guimarães Rosa (só que não com essas pobres mas lá com as palavras dele, é claro) “o milagre existe sempre”, então também é miraculosa esta não-visão dos transeuntes. Vou-me embora e deixo aí, alguém haverá de vê-los, nem que seja o gari ou o gari-vento para arrancá-los, nem que seja daqui a anos, quando não houver mais pranchas nem túnel embambuzado e estiverem decepando os troncos. Talvez, kafkianamente, a polícia leve preso um outro sujeito, inocente, sentado aqui nesse banco sem nada saber.

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VI 31

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Pra lá de 144 horas e ainda estão aqui! O tempo, a chuva, os homens ainda aturam a poesia – ou então é tanta indiferença. Surpreendentemente o Guimarães Rosa está sem tachas mas ainda sustentado por uma fenda na casca da árvore. Ou alguém o colocou lá ou inacreditavelmente ele se desgarrou e o vento o encaixou no sutil suporte. O Drummond está quase intacto; apenas a tachinha de baixo à direita sumiu. E o que é melhor: uma moça acaba de vir (camisa sem mangas, calção, tênis – tudo preto –, óculos escuros, rabo-de-cavalo e walkman (um walkwoman no caso)), se apoiou no “sul” do tronco – o Drummond está a “oeste” – alongando as pernas na quina da calçada, contornou a “leste” e foi prosseguir o esticamento se apoiando ao “norte”; eu só na suspensão espantada de que nunca visse; enfim se apoiou a “oeste” só que de cabeça baixa, até que se deparou com ele ao levantar a vista [será que já era alvo visado, uma estratégia prevista, tamanho o não-espanto?]; leu, meio reticente, meio absorta – acho que chegou a despender um olhar pra cá através do escuro das duas lentes redondas, farejando exatamente algum espião de butuca –, afinal parece ter lido até o fim o poema (sempre se alongando) e lhe deu as costas num 180º imediato e tomou seu rumo, andando e esticando os braços pela pista ensolarada. Nenhuma reação aparente; o Drummond também impassível apenas resplendendo o texto. (Não trouxe tachas, não antevi tal situação, senão reformava os “cartazes”, quem sabe amanhã, ao que tudo indica qualquer arroubo da natureza fará o Guimarães avoar.)

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Um homem passa segurando na mão esquerda a camisa enrolada e a uns 5 metros de distância repara na tira-guimarães-rosa inclinada no tronco, mas nada: não confia no aspecto da coisa, ou está com pressa, ou a curiosidade foi engolida por um medo que sabe-se lá de que tipo seja.
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Um casal de moscas verdes me ronda, quase imóveis em suas asas frenéticas, talvez agentes alienígenas ou sondas eletromagnéticas se perguntando o que faz ou o que quer esse outro ser com o ar de espião.
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Duas mulheres jovens vêm de lá e a da esquerda parece ver a tira-rosa e comenta qualquer coisa com a outra, sorrindo; ao se virar o seu olhar vê o meu a vendo e não diminuem o passo nem vão até lá ver do que se trata. Quase em seguida um senhor esbelto-esguio de cabelos brancos vem lá do lado oposto e parece ter visto o Drummond e em seguida vira a vista pra mim, como se fosse a coisa mais lógica do mundo; também não vai lá, se é que viu mesmo, também não se expõe ao espião, se é que o desmascarou. Penso nos quantos leitores que perco ao não estar aqui, e nos quantos em potencial que impeço, estando. Precisava era de duas naves-moscas a meu serviço, como os alienígenas.
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Sol, sol, sol, aliás as minhas costas estão sofrendo, no céu cada vez mais azul. Dia bonito. Pessoas passam, bicicletas, biriri, bororó, coisa e tal. Duas senhoras levemente vêm do leste da pista, conversam quase perceptivelmente daqui, ambas com chapéu de palha, um de grandes abas o outro do tipo boné, e de repente uma sensação incide, não há mais diferença nítida, tudo – tudo – é um corpo só, essa luz do sol os verdes a estrutura dos corpos humanos os insetos os cachorros todos os materiais sintéticos, uma grande escultura, comunitária superfície.
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Bem que podia colher o Guimarães Rosa e trazê-lo de volta amanhã ou depois, em novas tachas. Mas não: o tempo, o vento, a chuva, os homens decidem o seu destino. Ao chão jogado, alguém o rapta, esgoto ou lixo, o calor o amassa, ou desbota. Idem Carlos.
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Uma das moscas fica a 10/15 centímetros da minha cara, me olha nos olhos, a encaro de volta, só pode estar me analisando – os dados computados lá no Espaço... o álien rindo.
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Sol do quase meio-dia. A sombra da palmeira é uma grande rosácea a seus pés, a seu pé, ou grande tarântula espocada, feita em paz, da matéria das sombras.
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Aos cartazes, mais nada.
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VI 32

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À distância adeus Guimarães Rosa, sumiu do mundo – imagina o sentido disso literalmente verdadeiro... vixe –, mas me aproximando o encontro no chão, de cara pra terra, desenganado; não resisto, influencio o destino, cato; se amanhã vou trazê-lo e pregá-lo de volta já é outra história. Procuro pelas tachas... no tronco, no chão ao redor, nada. O Drummond continua firme, apenas manco da tacha direita. [Quererá o parque apenas o “pessimismo”? Nada da mesmice otimista?]

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Recuo o acampamento aqui para a mesa, aquela da antiga mulher meditando. Por estratégia, ainda mais agora só com o Drummond à espreita (curiosamente daqui a visão de lá é perfeita enquanto a da ex-árvore do Rosa se encobre por trás de uma outra), mas principalmente por ter trazido livros e outros escritos a serem feitos, daí espicho o olho de vez em quando à “velha paisagem amiga”. Aqui é mesmo mais à parte, ali no banco de fato eu era o cara-de-pau de um olheiro – aqui sou só um olheiro. (Agora quem quiser Guimarães Rosa que venha aqui à mesa, por ora o deixo escarrapachado na prancha.)
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Um sabiá dá três saltitos à esquerda e para – imóvel, imóvel, imóvel – olhando muito altivo não sei o quê, perscrutando o ar, os sons... o ar e os sonidos do Tempo.
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Dessa nova lonjura as pessoas passam silenciosas, não importa se correm, não importa se falam, principalmente os passos, macios e mudos, mas eis que surge uma mulher de rosa (rosa-choque no boné e na camiseta colada) e tagarela a altos brados à sua colega provavelmente surda, ou é ela que é surda sem noção de que brada, ou então não fala à outra, se arremessa ao parque, à cidade, ao mundo, ao desespero frio do Universo, desabrida, por dentro descabelada. (Sai o Rosa entra a rosa.)
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Ninguém para na árvore drummondiana. Fala, amendoeira!
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Amigas passam de bicicleta e uma delas: põe tudo pra baixo... tá tudo pra baixo? põe tudo pra baixo... Claro que se refere à marcha da bicicleta com a qual a outra se encrenca – mas bem que combina com a teoria do parque na sua inclinação pessimista.
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Um senhor, muito branco e de chapéu tipo boné e óculos escuros, passa acelerado com os pulsos fechados como se com pequenos pesos, como aquela mulher do outro dia, só que ele muito rápido, como se despachasse bananas eletricamente a quem ou qualquer coisa que pela frente passe. Adiante um pai na bicicleta leva o filho no volante, o moleque coberto por uma toalha; é a cena inteira do E.T., o menino o levando na fuga. Enquanto escrevia, duas meninas se aproximaram pedindo um trocado; quando pegava as moedinhas samaritanas uma delas interrompe a pausa ao ver os livros e as minhas folhas garranchadas e pergunta: você escreve livros? – recupero de pronto a cara de pau e respondo sorrindo: escrevo... Elas partem com as miseráveis moedas depois de outra pausa e um olhar à papelada, entre encanto e incógnita. Quase lá nos bambus a curiosa delas se vira e me olha, e, talvez pra seu espanto, me encontra a olhando.
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O sabiá (um outro) saltita de novo, perscruta, todo garboso, etc., devem fazer isso a toda hora, a todo minuto, ...mas as palavras vão e se metem a querer fazer do momento único, infalível, raro.
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Fui tomar um sorvete e quando chego um sujeito lendo o Drummond! – brincadeira, queria que fosse verdade, é mentira.
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Mas isso é verdade: a mesma mulher – única leitora declarada, até agora presenciada – reaparece (não de preto – de azul e laranja – mas no mesmo “talhe”: boné, camisa sem manga, calção, tênis, walkwoman, óculos escuro), faz os mesmos exercícios do mesmo modo no mesmo tronco [daí talvez a razão daquele não-espanto] e ao sair dessa vez dá só uma olhadinha rápida ao texto, como se refrescando um verso ou dissipando uma dúvida, ou como dizendo hum, você veio pra invadir mesmo o meu espaço.
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Os mesmos (devem ser os mesmos) invasores do Espaço de novo! Os pernas-de-pau – andando na pista sob o sol, adensando o silêncio distante... espontaneamente como os humanos.
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A chapa do escorregador atira sol condensado pra cá também.
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