vestígios das fenestras

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......................................... O que vamos fazer nestes dias de primavera que agora chegam rápido? Hoje cedo
o céu estava cinzento, mas indo-se agora à janela fica-se surpreso e se apoia a maçã do rosto no trinco.
......................................... Lá embaixo vê-se a luz do sol certamente já declinante no rosto infantil da jovem que
caminha e olha em volta e ao mesmo tempo se vê sobre ele a sombra do homem que atrás dela anda mais depressa.
......................................... Então o homem já passou e o rosto da menina está completamente iluminado.
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Franz Kafka, Olhar distraído para fora
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............. ............. ............. (fc) – da frente, de cima
............. ............. ............. (fb) – da frente, de baixo
............. ............. ............. (cf) – de cima, dos fundos
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(fc) ..... Olhar de menos de meio minuto: passam um ou dois carros mas entre os seus percursos dois homens vêm em direção opostas. O da direita é magrinho, leva a mão direita, aparentemente atrofiada, às costas, e fala alto um grunhido reflexivo que alguém que o conheça ou estiver bem perto talvez entenda. O olhar é meio baixo mas a linha discursiva é elevada, ininterrupta como o seu andar categórico se desviando liso das árvores e postes, quase apressado. A mão esquerda gesticula.
.......... O outro homem vem da esquerda, fora da calçada, pelo asfalto a menos de meio metro da sarjeta. Uma camisa para dentro, com cinto, mais velho que o magrinho, o andar é muito mais lento mas também com seu próprio ritmo, dá o ar de estar bêbado, levemente cambaleando, olha abaixo, calado, impassível, sozinho, alheio, atento só aos futuros passos – mas talvez descera ao asfalto pelo solitário temerário falante que vinha vindo. Cruzam-se, ao que parece, sem nem de soslaio se olharem.
.......... “Ao que parece” porque é noite e está escuro anormalmente: a iluminação do poste se apagou, de modo que os dois atravessam suas paralelas em um trecho penumbroso da rua, pintado mais pelas luzes das casas e pelos faróis varredores dos carros – trecho a que se abre essa visão casualíssima de janela. Curioso é que o vizinho da frente, cuja calçada é do poste apagado, está no hospital, problema do coração, parece que desenganado. O poste o homenageia, reflete a sua falta? A falta de luz o prenuncia?
.......... Não só por isso, pelos homens, pela penumbra, pelo calor espesso, estranho mas não de todo parado, dá um sentimento opresso – obeso –, um retrato relâmpago de um espírito caótico.

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18 03 99
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