vestígios de ora uma ora outra pracinha aqui do lado

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........... Hay treinta y cinco grados centígrados a la sombra, pero no hay sombra en la plaza.
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Julio Cortázar, Turismo aconsejable
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............. 1a praça - (A) - entre Av. Nova Independência, R. Kansas, R. Porto Martins, R. Rio da Prata
............. 2a praça - (B) - entre R. Geórgia, R. Luisiânia
............. 3a praça - (C) - entre R. Porto Martins, Av. dos Bandeirantes, Av. Nova Independência, R. Soberana
............. 4a praça - (D) - entre R. Nebraska, R. Guararapes
............. 5a praça - (E) - entre R. Dr. Geraldo Campos Moreira, R. Quintana, R. Guararapes e uma pequena anônima
............. 6a praça - (F) - entre R. Flórida, R. Alcides Ricardini Neves, R. Carlos Rega, R. Arandu
............. 7a praça - (G) - entre R. Sansão Alves dos Santos, Av. Luís Carlos Berrini e duas anônimas
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(A) ..... A praça é quadrada, ou um retângulo-quase, já que o quadrado matematicamente ou idealmente não existe, vi isso em algum lugar. É pequena, uns 100 m por 100, mas já importa entre tanto concreto. Árvores, uma quadra e a pista de uns caminhos e bancos e um anfiteatro com três degraus de arquibancada tudo de cimento. No centro uma torre de energia, árvore metálica mais alta que todas de “carne”, os cabos passam por ela e atravessam a praça sobre o pequeno vale e vão além nas ruas, ponte conectando a praça pelo alto, à esquerda em direção à Hípica, à direita na seta à marginal, até à pequena “usina” que há ali ao lado; seguem-se os cabos de árvore em árvore de metal no caminho reto, da beira do rio a perder de vista, ao infinito, energizando os lugares. Pelo menos é o que se vê daqui do alto, não que haja muitos altos mas a praça é cheia de sobe-e-desces na área curta para grandes relevos, e aqui é o mais elevado dos elevados pequenos, um planalto de paralelepípedo como uma ruína maia, na ponta em curva um pequeno muro de pedras, na ponta do muro me sento. De paralelepípedo também são o terreno em meia-lua ao redor do teatro e dois mondrongos formando a 3a quina de um triângulo entre o teatro e o planalto, usados (quando usados) para obstáculo ciclístico ou escalada infantil ou a criança pode brincar de vulcanólogo – o maior deles tem uma cratera no meio; rasa e sem lava, mas cratera. O sol, há muitos dias tapado, volta agora a toda, entre nuvens, até há pouco tempo pequenas, sutis, agora grandes e com peso, trazendo cinza no dorso com o resto muito branco, talvez maquinando outra chuva. Da Nova Independência vem o som da feira se desfazendo – domingo lá tem feira e hoje é domingo; um perfume de salsinha eu senti no caminho de vinda, quisera continuar sentindo mas não sinto. É hora de depois do almoço, muitas pessoas estão na praça, certamente ramificada pelo fluxo da feira. Um sujeito com seu vira-lata caramelo na coleira esganiça e para e late de um lado e de outro e continua (o vira-lata, não o sujeito); uma turma de uns dez jovens conversam e gargalham e de repente tiram sarro de um deles entre os bancos do outro lado do minivale; seis garotos jogavam futebol na quadra, três contra três e três esperavam, em um time um de camisa do Flamengo, no outro um de camisa palmeirense. Agora não mais jogam. A quadra está vazia como o anfiteatro, onde almas de atores mortos talvez encenem um alegre espetáculo para o entulho de lixo e garrafas de plástico onde a arquibancada se encosta à grama. Disse entre tanto concreto, mas na cercania da praça até que não tem tanto – alguns prédios, um único, baixo, colado a ela, os outros dispersos à distância, e o vão livre sobre a Hípica, ainda livre, a cavalos. Disse também muitos pequenos – pequeno vale, pequeno muro, quadrado... – mas o gigantesco também existe; 2000 m² são milhões de vezes maiores que o espaço da ponta em que essa caneta escreve. Os detalhes dos troncos, as infindas dobras das folhas; os três restos de árvores grossas cortadas rente e não morrem; as três palmeiras – com a cabeleira marrom das ramas em penacho –, o pinheiro às minhas costas, as árvores diferentes de que desconheço os nomes. A sombra sempre impressionante das copas escurecendo o tom do verde das gramas. A grandeza daquela nuvem que se aproxima, com certeza muito maior que a praça, com certeza muito, muito maior que a caneta.
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9 01 2000
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