vestígios, vestígios

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......................................... Agarrei a paisagem.
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..................................................... Guimarães Rosa, A simples e exata estória do burrinho do comandante, XVII
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......................................... Há um homem sonhando
......................................... numa praia; um outro
......................................... que nunca sabe as datas;
......................................... há um homem fugindo
......................................... de uma árvore; outro que perdeu
......................................... seu barco ou seu chapéu;
......................................... há um homem que é soldado;
......................................... outro que faz de avião;
......................................... outro que vai esquecendo
......................................... sua honra seu mistério
......................................... seu medo da palavra véu;
......................................... e em forma de navio
......................................... há ainda um que adormeceu.
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..................................................... João Cabral de Melo Neto, Janelas
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......................................... Quando a realidade é insuportável, ela parece um sonho de olhos abertos.
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..................................................... Paul Klee, Diários, 111-VII
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(rua) ..... Aquele funcionário suponho que da prefeitura pinta de branco uma sequência de troncos das árvores de uma calçada e sua ao completar o cilindro de mais uma, tinta da base até a mais de 1 m de altura mais ou menos. Na mesa daquele boteco um senhor grisalho e de óculos está escrevendo, faz uma anotação num bloco, do lado o chope claro num copo, quando venho ergue a cabeça me vendo abaixando-a em seguida quando passo. Numa esquina dois trabalhadores de uniforme cinza estendem a planta de algum percurso enquanto de pé lado a lado procuram um caminho ou marco e talvez achem; talvez o mapa subterrâneo e de canos (no meio-fio o carro de portas fechadas do bagageiro talvez cheio de ferramentas espera com o alerta ligado), talvez seguidores de um mapa do tesouro em pleno cenário urbano. Aquela casa tem a janela fechada, completamente fechada com o sol forte lhe batendo, provavelmente os moradores saíram a trabalho (ou viagem). Um carro buzina quando um outro vinha entrando e brecou a tempo, um sujeito engraxa o sapato de um outro sentado dentro de um carro estacionado na calçada de uma mecânica, no tronco daquela praça alguém pôs um papel com tachas agora um pouco engelhado pela chuvada de ontem, se por acaso o executor viesse ver esperando encontrar o papel em trapos ou pelo menos com as palavras borradas, se surpreenderia com o texto quase intacto, é um parágrafo, embaixo está escrito F. Dostoiévski e embaixo Notas de inverno sobre impressões de verão. Eu devia ter posto no início: (ruas), mas fica assim mesmo, no genérico, singular, como todas esticadas sendo o protótipo de só uma. Aqui na Flórida entre as ruas Alessandro Volta e Catipará tem uma ponta de grama com árvores e duas retas de lajotas que levam a uma pequena casa emadeirada, uma placa diz PRAÇA DO CAFÉ, em uma das cadeiras de plástico com mesa e guarda-sol sobre a grama você pode tomar um, apesar do calor e do sol em volta (o ar é solar em todos os lados), e com calma ir ajeitando numa folha o que viu há pouco ao vir vindo – pelas ruas – ou que ainda vê ao rever enquanto ajeita.
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* Me lembrei de uma coisa de um dia desses, de quando ainda ia a uma praça mas o que bem poderia ser um vestígio de rua: numa esquina, por aqui por perto mas já não sei onde, havia uma casa em reforma, no seu toldo verde de dois lados se lia ARTE, nas três faces de janelas havia grades, quadriculadas e de passagens estreitas, dentro alguns poucos móveis, estantes e um balcão de vidro, vazios, meio jogados, no chão alguma sujeira, não se sabia se a ARTE se referia ao que a casa já não era e não viria a ser ou ao começo da mudança que a transformaria no que desejam que seja.
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(janelão dos fundos) ...... Depois de trovões, placas rochosas do céu cara a cara, a peitos, cabeças, (primeiro havia um grande sol e o vão, do contrário os maciços vindo, tornando-se um só, chegando unos, na encosta de um arco-íris-quase como se sua formação dependesse de um laranja tomando corpo – e aos poucos as grandes gotas com grandes espaços, tombo de neve bem reto, pesado e translúcido), depois, com'eu ia dizendo, a chuva regressa, opulenta, se reinaugura e lava o quintal.
.......... Noite de dia. Granizos. Rapidíssimas poças.
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(cf) ...... A palma da palmeira (sob a linha de saída das telhas lá no alto) se estabana e sofre um bocado com a queda das cordas d'água.
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(fc) ...... O rio rua.
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9 01 01
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