VF 10

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(cf) ..... 1h50. O luar alaga o quintal silenciosamente. O banco branco de dois lugares aberto, pousado, à espera de alguéns que nele sentem; atrás as minipalmeiras nos vasos, guardiãs em silêncio como a luz. A janela está aberta apesar do frio, e apesar da imobilidade da árvore, das plantas, dos restos de nuvem, uma bandeira parece dizer: é um desses momentos-partilha, de se compartilhar com toda a humanidade, no mínimo, mas os vizinhos pelo jeito dormem e de que jeito reter o instante e despachá-lo em bilhões de envelopes? Uma estrela no horizonte – o horizonte possível, sobre o telhado – filtrada pela venda de poluição visível também na noite; acima outra mais clara, mais outra, e outra, mais claras. O céu é liso, escuro, mas azul no fundo, distinguem os olhos, a cor sempre permanece, é como se insistissem, exclamando. Nas minifolhas do bambuzal brilha uma ou outra lantejoula de orvalho. O pano branco no varal do vizinho, a fumaça branca do sopro, o ar não ventando mas renovado, a casinha falsa para os pássaros e seus voos em algum lugar dormindo.
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(idem) ..... 14h15. O azul escancarado reconduz fiel sua abóbada de anilito. Sobre si, os restos esparsos de ralas nuvens; os sons do dia – automóveis, vozes, objetos se tocando –, sombra diferente no muro, no varal dos três quintais panos pendurados. Latidos de longe, não demora e aparecem pássaros. Anilito não tem no dicionário; está no céu. E melhor seria dizer os restos das nuvens não estão sobre, estão dentro.
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(ainda idem) ..... 22h30. Um avião passa pesado, como se retido pela grande névoa que o circunda. A mesma lua, num estágio renovado, levanta-se nua, levanta-se nua, levanta-se nua, levanta-se, escorrendo em sua lenta câmera, inatingível sobre as nuvens. Frio, latidos ao longe, sons raros de carros próximos, muitos distantes, uma televisão ligada. No ar um cheiro de pólvora, como no poema de Maiakóvski.
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