VF 11

.
.
.
(da janela de um quarto do ex-Gastroclínica, atual “Hospital Prof. Edmundo Vasconcelos”, em companhia de minha mãe, operada) ..... Raia o dia. ([...] juntos de nuevo, juntos todos / los que esta noche están tan lejos / fumando el mismo cigarillo / del hombre solo en casa sola, / y si tenemos suerte puede / que también venga ése que mira / siempre a lo lejos mientras nace / el alba en la profunda selva. – J. Cortázar, Sobremesa) A crista de prédios, aqui mais perto o do Servidor Público, outro hospital, tantos e são poucos, somos enfermos pra todo canto, a leste o Obelisco, atrás estufada a abóbada do Ginásio, o topo de um grupo de árvores – vestígio do parque –, ao lado um pedaço do telhado plano da Bienal, bem mais adiante a onda estática da Paulista, na ponta da qual antenas injetam luz no teto maciço do céu. 15 graus? 13? 17? não se veem direito através do vidro de viés os números indo e vindo no alto do Conjunto Nacional. O jardim em frente, já já cada vez mais verde, calmo e silencioso em contraste com a rua lateral já e já crescentemente correnteza de carros – um deles, estacionado em algum lugar, dispara o alarme. Próxima ao heliporto a biruta murcha balança de leve apontando o chão, chão, o qual, que é o teto da torre da escada de emergência do edifício-ambulatório-consultórios em frente. No estacionamento lá adiante árvores baixas de tronquinhos retos e copas pontilhadas cortadas a plaina e ovaladas como num quadro de Seurat. No tal prédio sob a biruta uma enfermeira passa correndo por trás da parede de vidro do andar do meio. O sol, dificultoso, enferruja a chapa do tempo nublado. O dia raia.
.
*
.
(da mesma) ..... O sol não roeu de todo a placa de chumbo, mas que se diga: sua luz saiu, transpassa, o dia branco-prata como uma fotografia antiga eletrificada, se é que alguém me entenderá. Pequenas revoadas de passarinhos negros vêm e voltam, desaparecem, retornam, como vagas, como mágicas – ora lá longe, ora perto; o som dos grasnidos se superpõe sobre o dos carros, das vozes das enfermeiras, da cidade. Uma menininha sem pais à vista passa correndo sozinha dentro do andar daquele ambulatório envidraçado; os cabelos lisos, escuros, balançando até os ombros. Lá embaixo, na pista de entrada, veem-se as pessoas de cima, corpos reduzidos, cocurutos, os passos saindo e sumindo sob os corpos; médicos, “civis”, homens, mulheres, apressados, nem tanto, cabelos e roupas. A névoaluição da tarde de azeite (azeite descolorido) envolve a orla de arranha-céus, o horizonte de cacos exatos, os guindastes sobre as construções, os paredões marchetados de cinzas – gaseifica-os, sólidos. A biruta se enchendo vagamente, vira seu olho esburacado para o leste (opino), depois aqui para o nordeste, estaciona.
.
*
.
(fc) ..... A mesma prata, o mesmo branco, o mesmo dia emplastrado em frio parado. Um garoto de uns 10 anos atravessa a calçada do outro lado de bermuda e chinelo e camisa comprida; do caixote de papelão com papéis largado no poste em frente ao muro verde do vizinho, retira um tampo de pizza e sem pudor nem reticência o atira como disco voador para o alto em direção à rua – o disco sobe, desce, branco, mais branco que o branco do dia, caindo no centro do asfalto escuro. Em seguida um carro vem lento na contramão e o moleque com uma mão em concha na boca lhe grita tão despudoradamente quanto: tá na contramão aí né ô! E segue andando, olhando aberto o que vem pela frente.
.
11 06 99
.
.

Nenhum comentário: