VF 14

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(pela do carro) ..... Santo André, passa-se por um bairro chique, outro nem tanto, tarde ensolarada, favelas de tijolo, numa abertura colada à calçada uma escada de degraus de cimento, estreitamente, íngreme, leva para cima. Uma mesa de sinuca; um homem sorrindo, conversando com outro. Numa pequena garagem, com grade, uma moça de perna quebrada apoia o gesso sobre um escabelo e assiste ao que vê enquanto o sol lhe incide. Parando no semáforo a vista à direita alcança um homem deitado sobre um colchão vermelho e bege, dormindo. Dá as costas à avenida, uma trouxa de cobertor faz as vezes de travesseiro, em cada pé nem meia nem sapato, uma calça social surrada, na cabeça alguma touca ou gorro. Veem-se as linhas da camisa xadrez se abrindo e fechando conforme respira. Pó de poeira, pó de tempo, do abandono sobre todo tecido, sobre o tecido da pele dos pés descalços. No momento mesmo, do aparelho do som do carro sai o swing de Gilberto Gil cantando: “Santa Clara queira queira Santa Clara falte uma besteira pr'este céu de anil clarear”Opachorô.
........... Um grande muro intransponível de uma fábrica. Telhado de lâminas de alumínio, tudo quase fechado, exceto por uma ponta de maquinário, espécie de caixa-d'água e canos e restos de dispositivos em acesso aparente a outros. Do lado – o telhado acima, muro alto abaixo, o maquinário em torno – um único homem parado, inerte como um boneco, mas um pequeno brilho de olho e uma veracidade da pele e cabelo embaraçado e fuligem no uniforme diz que é gente; usa um bigode grande, parece um Lênin, ou um mineiro russo ou um carvoeiro sei lá de onde, e olha fixo o fluxo incessante e sonoro dos carros, talvez descansando, talvez fugidio, talvez insuportando, talvez mais relaxado do que se presume.
........... Anchieta; um carro parado, vazio, encostado com o alerta piscando.
........... Ipiranga... Jabaquara? Uma senhora japonesa, por nascimento ou ascendência, mexe muito concentradamente em suas (temporariamente) plantas dentro da minimata da floricultura. – Isto visto de relance, assim como o russo da fábrica.
........... No túnel cinza-fundo da Bandeirantes (de paredes e comprimento mais espessas e maior na cabeça do que realmente são de verdade) surge do trânsito um fusca, é marrom-velho, maltratado, o para-lama da frente esquerda amassado, fendas de ferrugem; nas letras da placa, CEU – obviamente sem acento. Logo à saída o azul da tarde rechaça a boca do escuro; um menino (10? 12? menos de 15 anos) atravessa entre os carros em movimento, olhando mais para cima que a qualquer outro ponto, o amigo fica no canteiro do centro, olhando para os carros e para o outro indo, que consegue chegar ao outro lado, ileso, está muito atento à pipa que empina, que estende-se, lá no alto, preocupante é que não caia, dane-se a própria vida, a pipa, a pipa, a vida suspendida, a ela agora não é hora.
........... No sobe e desce da avenida Pedro Bueno a paisagem descortina-se de repente: ondas de casas entre mais ondas atadas de casas sob o sol descendente – São Paulo não acaba nunca. Na curva de uma reta a fachada de uma favela com um grande varal em ponta (o meio para cima, em flecha), de ponta a ponta camisas e peças brancas, uma ou outra cinza ou estampado-neutra, e uma única, perto do alto, muito vermelha, o conjunto em destaque pela iluminação da tarde – conjunto quem sabe inspirado pelas festas juninas.
........... Na subida de outra ladeira o sol salta de chapa, seu laranja vivo morrendo na tarde, redondo se expondo completamente. Depois – numa reviravolta do caminho – o seu brilho como um flash no retrovisor, efêmero, fulminante, espada de fogo doce-docilmente.
........... Dois meninos do meio-fio em frente a uma casa de fogos jogam biribas no casco encaixotado de um caminhão passando. Estalam no metal; eles pulam e apontam, gritando entre risos.
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25 06 99
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