VF 15

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(fc) ..... Tarde de sábado, tranquila. Silêncio sereno como a pouca brisa, estranhamente nenhum carro. (Pouco antes, dentro, os últimos lampejos da Rhapsody in Blue, Gershwin novamente destacando o momento; um cãozinho todo branco cruza a encruzilhada das quatro esquinas à direita, leva sobre as costelas uma única mancha preta em formato da África. Fim da música.) Uma luz do dia cai diretamente do azul emplastrado em ponta a ponta dos horizontes – um avião nele é um ponto branco, brilhando, e o seu ronco chega bem depois, quando mais distante. A cadeira branca do vizinho, sem o homem, parece mais assentada e mais clara ao sol nítido a colorindo de lado. Sombras desenham-se sobre a rua, as portas das casas, muretas, grades, folhas e troncos de árvores, sarjetas, postes, com a cor própria de cada coisa em que encostam, escurecida. Um senhor barrigudo de barba e cabelos brancos – é conhecido na vizinhança, o Pepino – atravessa o caminho com seus chinelos e boné, tosse, para, põe o dedo na garganta, faz que vomita não vomita, acaba cuspindo na água estagnada. Haverá de desmoronar a tarde? Nada: ela carrega leve uma perfeição total, chega assusta. Faz parte o homem, o não-homem na cadeira, a alguma sujeira de dois papéis brancos amassados e um plástico aqui e ali sobre a não-correnteza da sarjeta, o brilho ambulante e efêmero da fuselagem do avião voando. Paisagem rediviva em brancos, poderia ser o nome, se fosse um quadro.
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(“) ..... À noite: a noite. A mesma tranquilidade na rua. Cadeira vazia, outro time de sombras, um carro estacionado que não havia (nunca), estrelas. De repente, em frente, um brilho fugidio de agulha; movo a cabeça, some, reaparece – outro à direita, irmão gêmeo. Ah, o mecanismo cerebral entende: luzes de antenas de prédios por trás trespassando a copa das árvores, indovoltando sob a fibra das folhas. Depois de entendido, surgem mais: muitos desses olhos finos, incandescentes, espreitando as casas, os lares, as outras luzes, adentro às janelas, paisagens.
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25 07 99
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