VF 16

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(cf) ..... A moldura da janela recorta em retos os marrons verde-amarelos da árvore esfiapada do vizinho. Esfiapada e se levantando, como fios de mil comunicações procurando o alto. O azul por trás. O sol em tudo – suave, sobre os gerais das superfícies, aquecendo os núcleos (talvez). Um vento sem som balançando – inclusive a margem das cortinas, dentro, mas os retos da moldura permanecem fixos. Um beija-flor ziguezagueia entre os troncos, cutuca uns galhos, desaparece. Uma joaninha, em passo-eternamente, perscruta o caminho descendente da cortina em seu forro claro.
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(de baixo dos fundos; janelão) ..... O vento em todo o noroeste da mata da pequena palmeira, injetado de amarelo vivo.
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(cf) ..... Um helicóptero preto da polícia civil para (dentro do possível) a uns 100 m no ar. Policiais olham pra baixo; alguém ou algo lhes interessa. Ficam. Ficam. O farfalhar das hélices se prolongando do centro negro. Seu balanço é sutil – nem constante como o daquele já antigo vento na árvore enquadrada, nem tão preciso como o de um beija-flor (como aquele já há muito distante). Na janela há um “móbile” – são oito cilindros de metal e um pedaço de madeira pendurados por um fio preto na parede de dentro; a linha do fio é paralela a uma imaginária que sai do centro do helicóptero negro e segue sem fim até o céu; mal é preciso ilusão de ótica e se avista: quem tem o fio é a máquina, não o móbile. Emerge um avião – tubarão repentino e impávido do oeste. Seu destino vai direto ao ponto negro no céu policial – a abocanhar, faminto, o inseto gigante. Quando haveria o choque, o helicóptero levemente sobe, em câmera lenta um drible, o avião tubarão (ou touro sideral) passa batido, segue com a mesma fome a mesma linha de um outro destino. Não passou por baixo, passou por trás, muito além, diz a lógica de um lógico dentro do cérebro; mesmo porque o tubarão era do mesmo tamanho que o mosquito – como você não disse –, o que torna um absurdo se pensar em choque, já que o tubarão é boeing e o mosquito mero helicóptero negro, ponto, policial – e quanto àquela parte em que o seu fio seguiria sem fim até o céu, não seguiria, pois onde o helicóptero era já é o céu. Diz o chato cérebro, esclarecedor, lógico.
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(“) ..... Depois do avião, sobre o helicóptero, uma pipa. Corpo vermelho, cauda comprida de mil fitas, oscilando, em ondas, diagonal, macia; como o avião em relação ao helicóptero: sem choques. Some. Passa mosquito, passa boeing. Olha a pipa de novo – um outro vermelho pelo cair da tarde, a mesma cauda de fitas.
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(“) ..... Novas ondas. Some.
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(O sumiço do helicóptero é quando de repente guina e vem para esses lados, atravessa a casa por cima com a âncora do seu som como arrasto, de ponta a ponta treme sua música, preenchendo, sugando, sinfonia sinistra.)
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3 08 99
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