VF 17

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(fc) ....... A paisagem da janela ora revista
.......... parece repentina obra de algaravia
.......... – árvore, telhados, grades, fundo
.......... fios, poste, som dos carros
.......... tudo, cada objeto, em conjunto
.......... camadas de papel, películas
.......... de gravura antiga de Kyoto.
.......... Algaravia sim (pelo todo)
.......... mas algaravia e nítida
.......... pois cada coisa com seu prumo:
.......... de folha fina, a árvore a prumo
.......... de folha fina, os telhados
.......... depois de folha fina o fundo
.......... a prumo como os postes, como os fios
.......... como o som dos carros
.......... todos cada qual em folha fina
.......... contornos
.......... de película nova de há séculos
.......... – que o artesão de Kyoto
.......... não se sabe como
.......... transferiu de seu passado
.......... para um inopinado palco, hoje
.......... do céu entre grades de São Paulo.

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(“, + tarde) ..... A gravura do artesão escurece a tinta. A luz esvaziada insufla densidade nos móveis – móveis é modo de dizer, nas esculturas urbanas: seis árvores, os postes, as telhas, sarjetas, folhas secas e das copas, céu sem nada narrável – nem azul nem nuvens, uma chapa branco morto de nem tarde nem noite. A noite, ainda sem rosto, é quem envia os braços nesse peso dos objetos; as películas precisas foram-se, delas nem retalhos: agora um amontoo de tridimensões, pedras sobre pedras das árvores postes carros etcéteras. No muro verde em reforma do vizinho, um rastro intruso de cimento em destaque, subindo, como se daqui não fizesse parte; por trás das grades com lanças sobre, a roseira tem 1, 2... cerca de dez de suas rosas rosa desabrochadas – deveriam estar lá no tempo da gravura de Kyoto, mas só agora percebo. (Na passagem da garagem de um lado um grupo de sacos de lixo – cheios –, do outro um rio raso de água cortando o caminho; esses dois não existiam.)
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3 09 99
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