VF 18

.
.
.
(pela do carro) ..... (7 de Setembro, feriado da nação; 177 anos da dita Independência.) Lá pros lados de Interlagos – Cidade Dutra, Campo Grande, Rio Bonito, Socorro, Jurubatuba, Jardim São Luiz... depois direção de Itapecirica-Campo Limpo –... por ali. Casas, ora de tijolo, ora amontoadas, ora de madeira, ora com grades, ora sem nada, ora chiques, ora grandes à rua arborizada, ora um inesperado conjunto de palmeiras, ora só cimento, rebocos, remendos, fios ao ar livre, nem calçada; as avenidas rasgando ou costurando as planícies ou morros de manadas de lares. A Guarapiranga de repente, mar na cidade, cenário, às margens estaleiros improvisados ou barcos sobre os barros como esfinges, esperando um segredo, um conserto ou que os carreguem – na oficina do outro lado, entre carcaças de automóveis, pneus, ferros velhos, uma lancha espera a chance, é como se o mecânico dissesse “é... deixa aí, a gente endireita também, vai no embalo”. Mais rios de casas ainda, maré cheia: parece que choveu e as gotas-casas-de-família se fixaram, cristalizam-se, cristais de vida, infinda, desbravando a terra até se chocar a outras chuvas, como raízes. São cidades em cidades, como bonecas chinesas (ou seriam russas?). Falando em chuva, não chove faz tempo; hoje, uns 30º à sombra. Na Marginal, entre outros, um grande prédio moderno, quase inaugurado – sua propaganda é a maior casa de espetáculos da América Latina – e de tanto lugar ocupado emerge a pergunta por onde vai tanto esgoto, sua rede invisível, às vezes a céu aberto, às vezes inexistindo. É como diz a letra da música: São Paulo é como o mundo todo; São Paulo assusta, e quando você pensa que assustou tudo, ela continua. E pra variar é só um pedaço de um pedaço, faixa, fatia de bolo incessante, mutante, amostra de só uma de suas zonas – sul. E, é claro, dizer um lugar ou outro é dizer “gente”, em todos: gente, gente, gente... ser humano andando, ser humano limpando, ser humano vendendo, ser humano comprando, ser humano no trânsito, engarrafamento de pedestre ou automobilístico, seres humanos, seres, seres, seres – humano. São Paulo não é só imensa, é insana; e, também, encanta... – mas como é bom umas reticências logo, pra gente não ficar maluco. (Depois, num gramado, uma mãe carinhosamente chamando o filho: Ió-iô... Ió-iô... Iúkyyyy! – era um japoneizinho mulato, lindamente à vontade, atento a uma pedra ou um galho, estampada viva sua expressão seu gesto seu modo... em complemento, ou contrastando, ou relembrando, a importância impagável do indivíduo no todo, por mais que o todo se alastre, ainda que o tal todo o esmague.) Reticências sim... ou um ponto – . – simples, seco, como no sol o menino brincando.
.
*
.
(cf) ..... Entre as linhas da janela o azul crepusculesce. O azul escuro – cor do Tempo? – passo a passo mudando de tom, como um instrumento musical estranhamente se afinando.
.
7 09 99
.
.

Nenhum comentário: