VF 19

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(fc) ..... Venta, frio, janelas com os vidros fechados. Escurece no céu e os postes clareiam. Até há pouco, pela janela frontal do vizinho, podia-se ver alguém lendo dentro do espaço de luz amarelo, sentado no sofá – sentada; pelo simples gesto de virar a página via-se que era feminino, e no modo de pender a cabeça ao conversar com outro alguém, daqui, invisível. Mas agora a cortina está fechada vedando de ponta a ponta a janela – apenas o amarelo filtrando-se por ela. Para um carro, desce a moça loira, é a filha do vizinho. Aperta a campainha, ele olha lá do postigo também amarelecido da porta. A abre, desce da varanda, destranca o portão de ferro atrás do qual está a filha, ela passa pra dentro. A troca de beijos e um quase abraço vejo através do vidro de repente embaçado pelo meu respiro por ter chegado mais perto. A filha olha uma planta no jardim e comenta algo dando um rodopio; dirige-se à porta aberta com o pai de bengala a seguindo. Entram e o branco da respiração no vidro desaparece quando se fecham. Estão dentro do amarelo agora, e não se veem seus vultos, tampouco o do ser feminino que ora lia.
........... O céu silencioso do domingo testemunha cada movimento sem a intromissão de sequer um pingo, apesar de tanto cinza, apesar de compacto. Apesar do vento. Apesar do frio. Apesar do teórico tétrico estado, é bonito; e ressalta o amarelo interno do organismo da casa do vizinho.
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(carro) ..... As luzes dos faróis interpondo-se, vermelhos de freios, ou acesos neutros, atrás, amarelos de pisca-piscas ou no atenção dos semáforos, os verdes-azuis abertos se não for o outro vermelho em pares; o asfalto molhado brilha na noite, cinza escuro vivo, vulcânico, resfriado; a ida-e-vinda não para e árvores esguias no canteiro entre as vias contrárias, ilhadas mas só aparentemente alheias na avenida. Na calçada oposta a uma loja de móveis chiques e antiguidades, dois meninos de rua passam com os moletons finos até os olhos se protegendo do frio; o frio não impede que a senhora de ancas largas passeie com sua cadela retriver negra também obesa mas não tanto quanto a dona que visivelmente vai contra o vento pois tem os cabelos grisalhos longos balançando enquanto a cadela segura pela coleira não, ou antes os tem, mas curtos; um avião entrassai das nuvens formando um bolsão de branco pela luz em fragmentos. (Se você é um míope e tira os óculos tudo então é só luzes, apesar do desfoque.) Um carro de polícia corre girando no campo de visão as suas luzes, mas em silêncio. Talvez porque do som (daqui de dentro, de onde o diviso) o que preenche o espaço é a Ella Fitzgerald cantando – The Man I Love – quando as quebras do fraseado e a alegria de um romantismo vêm lá de Londres deixando de ser passado em um agora em que afirma: impressionante, mesmo no caos da cidade grande pode haver um balé constituído, sem entrechoque – harmônico.
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(janelão dos fundos) ..... As cadeiras inclinadas sobre a borda da mesa redonda para se escorrerem de uma chuva que não vem. A silhueta das telhas, cabeças lado a lado, algumas inclinadas como as cadeiras, todas de frente como numa pose para retrato. O verde muito escuro das árvores, do muro de hera, dos vasos, de orquídeas, de palmeiras. Madrugada. (quer dizer: noite alta) Quem foi que disse que as plantas não dormem.
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3 10 99
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