VF 2

.
.
.
(fb) ...... É sábado. Por um bom tempo não passa carro, não passa gente, não se ouvem nem barulhos, só uns sons distantes. O muro verde do vizinho resplende ao sol que visita a rua, que a vivifica, o mesmo sol que fabrica um azul sossegado – acho que é o chamado gris – na sombra das árvores no asfalto. Pra não dizer que nada acontece um passarinho rasga uma parábola bem aberta – e, é claro, as sombras se movem (mas a pressa da febre de um olhar humano assim como esse meu, não detecta). A cadeira do vizinho que, quando saudável, a usa para ler o jornal ou ver o movimento da rua, está como sempre encostada na parede da varanda, do lado da porta, branca e de frente, agora vazia. Entre a minha visão e ela cruza-se o grafite das espaçosas linhas das grades da janela, do portão daqui de casa, de sobre o muro verde da casa dela; tudo se enxerga, afinal a consciência parece se acostumar mas o subconsciente sempre escuta o neon do aviso: entre grades. A marcha do sol continua invisível, enquanto brilha. Um carro não demora tanto assim a passar.
.
*
.
(fc) ..... Mais tarde, do alto, a mesma olhadela, o crepúsculo se infla sobre o mundo da cena. Na varanda da cadeira acenderam uma luz confortavelmente amarela – o mesmo nas duas janelas do andar de cima da casa da direita; amarelo suave e intensamente em contraste pelo azul anoitecendo por trás da silhueta das casas no fim da tarde. Quase não venta. O céu, condescendente, recebe o Outono e sua bandeira azul-livre.
.
20 03 99
.
.

Nenhum comentário: