VF 20

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(fc) ..... A leste: o jacarandá em flor. Pétalas cobrem rua, sarjeta e calçada também. Dizer a leste o jacarandá em flor não quer dizer só a leste em flor um jacarandá, quer dizer este sol que há dias não se via, quer dizer esta brisa alma-gêmea dele, quer dizer a alma gêmea da brisa que é esta luz (toda ela réstia e toda ela mina) nos telhados, nos galhos, cortinas, verdes das folhas e do muro das grades da calha das gelosias do vizinho, nos prédios da longe avenida, no açougue, no terra-alaranjado do carro do outro vizinho na garagem, no muro bege da esquina, pichado, nos postes escuros pintados de branco na base, na cúpula da floricultura, nas costas vermelhas do moço de camisa vermelha que passa andando, nas nucas de todos parados dentro do ônibus andando, na sombra que cobre a placa do açougue, OFERTA FRANGO, 1 real e 29 centavos, no poste metálico (quase da altura do pequeno pinheiro no lado de dentro do muro pichado) com o nome das duas ruas em placas azuis se encontrando perpendiculares. Quer dizer o céu esfiapado de nuvens quase desfocadas de tão ralas. Quer dizer o pó que se balança no caminho da janela se se mexe em algum pano. Quer dizer que não é primavera, não é outono não é verão não é inverno, é uma regalia consentida pelos deuses naturais, lançando uma sobra de encanto lá por trás do firmamento.
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(da bicicleta, que também não deixa de ser uma janela) ..... Um caminhão abarrotado de papéis empilhados passa pesado no sentido contrário; papelões, plásticos, alguns restos indefinidos; a personificação de um lixo, ambulante – migrando para fugir do que é limpo, ou oferecendo seu produto pelos caminhos da cidade. Passa e logo de onde veio parece ter deixado uma rosa esmagada: é uma mancha de planta verde com um tom vivo avermelhado na ponta, no centro do asfalto; chego perto – o seu caminhão culpado já à distância – e não é nada de rosa: é um mato com algumas grandes folhas, sim, mas a ponta avermelhada é um resto de propaganda, anúncio vivo de letras sobrepostas anunciando sabe-se lá o quê. No Parque do Ibirapuera: vou pela pista dos ciclistas, pela mão – pelo menos é o que diz a seta – certa, e vem uma moça também de bicicleta, contra; vem, se aproxima, se aproxima mais e o pedalar meio bambo mais um olhar à solta para os lados parecem confirmar: vai continuar vindo, assim mesmo. Quando me decido já é tarde, o desvio pequeno: trombamos. Eu ia ouvindo um Haydn pelos ouvidofones e vendo de longe, pré-aquecido do acontecimento – susto pequeno –, mas o dela, susto grande, foi visível por trás dos óculos escuros arregalados – ela é quem saiu de uma música, arrancou-se. Ah, desculpa, tô muito distraída, se machucou, não, não, desculpa, não foi nada. Desenroscam-se os pedais, monta-se de novo, seguem-se os caminhos. O Haydn, de novo posto, faz as pessoas passarem lisas (é um quarteto de cordas não sei que número), daqui deste ângulo mais de cima então e sobre rodas... eu não sou uma gente, não tenho olhos, nem sangue nem cérebro, nesse estado em que o que acontece é ser uma câmera, dos pés à cabeça, lentes na boca de um estojo, sou todo um foco sequenciado num cinema. No lago arco-íris insistem em sair de dentro do empuxo. Naquele banco – há quanto tempo? há quantos séculos? – em que um dia o casal de namorados sorriu e se disse vivo como a vida, agora-já um senhor está deitado, as pernas cruzadas uma sobre o joelho da outra, os tênis descalçados no chão ao lado, e na cabeça, de onde só se veem as pontas dos cabelos brancos, um chapéu de palha refestela-lhe a cara, o conjunto todo no laranja-lençol vindo suave do céu. Haydn não consegue encobrir uma sirene que atravessa o lago – de onde também atravessa, pelo lago, a imagem dos carros carrinhos de brinquedo locomovendo o agito do urbanismo cadenciado. A Assembleia dos Deputados. O Ginásio. Os prédios e vira e mexe um vai-e-vem de helicópteros. Falando em lago, esta nervura do branco trançando à custa do vento. Falando em lago, esta cegonha na margem, passo a passo. (Só agora noto este poste simples à minha frente com uma placa azul semelhante às da esquina de casa, na qual, balançando um pouco, lê-se o nome até hoje por mim ignorado: Lago do Sol Nascente – agora já tarde, quase ocaso.)
........... Frio, volta rápida de lá, até mesmo em São Paulo o caminho pode ser fluido (até mesmo assim, em fim de sexta-feira todo mundo ouriçado molhando o pé no sábado), até mesmo São Paulo pode ser desinteressante, tanto motorista veículo caminhos na aparente igualdade quando nunca se repetem, passa tudo batido, o que importa é chegar. Mais ou menos à mesma distância de casa em que aquele caminhão passara, passa um velhinho numa motoca de cor indefinida de tão acabada, um galão amarrado no volante (o tanque?) um cabelo embaraçado uma barba por fazer os pneus finos, gastos, é um filhote triste, muito recentemente destacado do útero de lixos do caminhão transeunte.
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* No meio do percurso várias flores amarelas de uma árvore anônima como o lago era choveram sobre a bicicleta, sobre meu boné sobre o corpo, sobre a nova música que ouvia – dessa vez Bidú Sayão num trecho bachiano de Villa-Lobos.
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(janelão) ..... A noite talvez seja o verdadeiro lençol, ou é um grande lençol-não. De qualquer forma ainda se veem uns coágulos de azul (do tom azul escurecendo) bem no alto, cortando o telhado, misturando as nuvens, envolvendo o zênite.
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(cf) ..... A nuvem de mosquitos de ontem, anteontem... antipáticos, insanos, muito-vivos-mínimos como sempre, desistiu ou mudou de rumo, esconde-se em um outro buraco (que não os dos bambus do quintal?) que não o da janela deste quarto.
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22 10 99
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