VF 21

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(do carro) ..... Uma lua cheia nítida como uma hóstia – hóstia absolutamente ecumênica, ou sem religião, apenas hóstia. E a nuvem que a atravessa rápido curiosamente a deixa mais nítida. Nitidez de branco vivo, silencioso, sobremaneira.
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(da dos óculos) ..... Um outro jacarandá tão vivo balançando sob a luz do poste – a da lua não chega a tocá-lo, dissolve antes, ou não só chega como o alaga, mas olhos humanos como os nossos não captam. Agora sem nuvens; a Lua de L maiúsculo. O céu liso de azul escuríssimo. Abaixo da bola perfeita uma estrela solitária (Vênus?), entre ambas um traço reto, de pé, pêndulo ao contrário, imóvel – o tempo suspenso, em branco. No prédio da avenida caixas de luz nos apartamentos embutidas, talvez se gestando, até que se chispem como fogos de ano-novo. No declínio da visão em foco, a porta da marcenaria cheia de latões de lixo cheios de ripas, premeditadamente inutilizadas. Um cheiro na noite gera um paradoxo: o cheiro de um vento na rua, uma rua, sem cheiro (neutralizando na sua alfândega qualquer olor eólico). Onde guardas-noturnos?, o som de uma festa se afastando, a cidade quase vista como um todo – se se voasse.
........... O u e o a imensos como o l.
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(cf) ..... A hóstia da lua nítida – sem querer, abençoando. (A estampa da colcha da cama reinventada na prata impalpável.)
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23 10 99
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