VF 22

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(fc) ..... A copa que as duas árvores juntam parece uma rede de camuflagem com que uma vez num filme não sei quem escondeu não sei o quê no fundo do mar. O não sei quê aqui somos nós, o telhado, a garagem, a calçada e a rua em partes, as janelas. Por trás um céu de chumbo, branco, de mármore – se o da Lua se despeja, esse ilumina por introvertido, distribui seu tom de tão planificado. O jacarandá, imóvel: as placas de rua, o asfalto, as folhas soltas; mesmo a roseira do vizinho, ainda que em cor – só a vizinha se movimenta, arrumando-a, com uma calça rosa-cheguei, cheguei mas menos vivo que o das rosas, por exemplo aquela bem de cima, daqui visível exatamente entre duas das pontas das lanças da grade esverdeada.
........... Um grande caminhão azul e amarelo cheio de botijões de gás magros azul-prateados passa contradizendo os inframovimentos e os não-sons.
........... Um senhor encurvado, de bigodinho e (poucos) cabelos brancos, passa lento no sentido dos botijões, só que na calçada, da esquina até se perder à esquerda; também transformando os movimentos – não os não-sons –, de um jeito muito próprio, do avesso.
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(“) ..... Um fusca branco branco branco estacionado. Está muito limpo ou é este céu de carrara que o ressalta (ou a combinação de ambos, mais o ar, a temperatura, o humor do dia e a visão desses olhos... é claro, é provável).
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(carro) ..... A câmera lenta dos engarrafamentos não é uma câmera lenta. É um lento nervoso, em que os peixes-veículos ocupam os espaços, sedentos, em espasmos.
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(fb) ..... A rua vazia, a cadeira vazia do vizinho, as árvores mais em repouso que de costume, a sombra precisa do poste, fixa, feita da luz dele mesmo, escurecendo mais ainda o verde escuro do muro; escuro na verdade iluminado, pela tal luz de cima, cuja fonte não se vê, está por trás do telhado, poderia ser a de uma lua, mas não é, o fusca branco há muito foi embora, silêncio, já é tarde. Passa um único cachorro sobre a luz da calçada da esquerda para a direita como se fosse para mim; não obstante nem me liga, é um vira-lata capa-preta, as orelhas caídas a cauda comprida em pé, pelos esfiapados por toda parte, nobremente segue em frente, assim como surge some, não desanda – jamais. De dentro do filme da (janela da) televisão na sala, a dublagem do personagem havia dito: a triste Belfast... – e dá vontade de exclamar frente à beleza silenciosa desta, a triste São Paulo.
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26 10 99
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