VF 23

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(pela janela da porta (não que haja uma na porta, mas o próprio vão dela aberta é uma janela no caso)) ..... Um vaso de barro bojudo, marrom-novo com um brilho convexo no alto, o tripé de ferro preto o sustenta a uns 5 cm do solo; da terra sai uma planta de que mais uma vez ignoro o nome, tem pequenas folhas em tufos verdes, 3 ou 4 galhos eretos compridos, erguendo-se até 1 metro ou quase. A viga do telhado divide a imagem ao meio. Sua segunda parte, perpendicular (daqui diagonal subindo à direita), some por trás da aresta alta da porta; cinco cabeças metálicas de pino as fixam, sólidas – apesar de uma ou outra mancha de umidade e umas pequenas fendas na base dizerem que o tempo é uma praga, inexorável. Por trás a parede branca divide-se em dois: à esquerda caraquenta enrugada como uma esponja partida como a camada de cima de um asteróide, com as devidas sombras – mínimas se de esponja, imensas se do corpo celeste; “naturais”, referentes às duas se da parede –; à direita lisa: lisa ou quase lisa: embaixo há um descascado da tinta (mostrando o perfil amarelecido de um cavalo sem patas) compondo um balanço com a visão ondulada da outra. Na verdade em três (divide-se a parede branca): uma parte de cima está sobre as duas de baixo, mais velha, branco encardido de manchas cinzassinistras principalmente sobre a viga. À direita no alto em direção ao cavalo, um suporte de xaxim em A com um pendurado, nele um chifre-de-alce (a planta). À esquerda a invasão levemente frêmita de antenas de samambaia cheias de folhas. De viés no chão um ralo; cruzadas, as linhas dos losangos das lajotas. Não é que tudo pode ser um quadro?, pergunta um ingênuo, encantado, olhar por trás dos olhos. E quem é que responde? ... (Não é de-alce, depois explica minha mãe; é de-veado que a planta chama-se.).

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(do carro na correnteza da estrada, no meio do Estado de São Paulo, entre campos) ..... Grandes nuvens pastando em todos os ventos da rosa; entre as cabeças de umas e outras, buracos de azuis. (De azuis, são vários, principalmente dois, um claro nos buracos mais baixos, um forte nos de cima; para os lados os verdes espalhando-se como um estranho reflexo, como um complemento.)
........... Duas casas de barro encravadas numa pequena concentração de árvores, floresta no campo ilhada, navio verde nos verdes do campo.
........... Dos vãos do céu, rastreando o solo, holofotes do sol.
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(“) ..... Num campo muito escampado, gramado, uma única árvore de largo tronco se põe de pé como a própria Beleza a postos. A copa é também imensa (como o tronco, como o campo, como o seu estou) e, redonda de bolha, redonda de ideia, redonda de perfeita, é como uma maquete da esfera de estrelas dos antigos, anterior ao éter; é como a armação de um Universo. Solitários também são em si o campo, a mata seguinte, a linha dos horizontes, a estaca da cerca e os arames, as outras estacas ainda que lado a lado, assim como toda árvore é solitária – solitária – ainda que próxima a outras; mas a solidão não é má, é o que o coração da paisagem constata: não tem valor negativo, não expõe caras de tristes risos, choros, não lamenta, não se amontoa por desespero – apenas é só, são solidões, vazias (em si cheias, “zen-budistas”, se me permitem o termo). Passa a árvore, já há muito, mas com certeza continua lá, só, entre tudo.
........... A uns 100/200 m, num minivale de repente, um cavalo; branco, ereto, sem sela nem arreios (segue o mesmo espírito das solidões, o mesmo espírito das solidões sem mau sentido): parece uma estátua intocável, templo, padrão, marco, mas está vivíssimo – não sei como se sabe; sabe-se.
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(“) ..... Num conjunto de casas comerciais a placa (preventiva?) inusitada e doida: PROIBIDO PEGAR CARONA.
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11 11 99
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