VF 24

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(pela da TV) ..... Uma propaganda diz qualquer coisa do tipo “desespero, desemprego, assassinatos... os programas de televisão mostrando a sociedade ou apenas sensacionalismo oportunista?” – é a propaganda de um programa metalinguístico, em si sensacionalista. Das janelas ouve-se a cidade: 18/19h, inferno frio, chuva chove chuva, engarrafamentos (quase novo recorde, é o que também fofoca (informa) a janela televisiva), acidentes com certeza, com certeza impaciências, com certeza atrasos, em consequência pressas, chove chuva chove, escurece e uma sirene é ouvida como se fosse única, indo e voltando ziguezagueando talvez transportando corpos, mas são várias.
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(janelão) ..... Chove. Já é quase oficialmente outro dia, mas chove. Agora uma chuva finassonolenta para quem tem casa e sem enchentes. Muita gente tem casa sem enchentes; muita gente tem casa e enche; muita gente não tem casa; – a chuva (sim ou não sonolenta) visita todos. A cachorra do meu irmão por uns tempos aqui, uma doberman de três meses e meio, famigeradamente agressiva com caninos de nazista, enrodilha-se nos panos da lavanderia e dorme – é muito meiga, é dengosa, e com certeza escuta a chuva como os homens. Como os paulistanos que dormem; como os paulistanos que nunca dormem. Como as cadeiras, o muro, a árvore no vizinho, as telhas, chorando ou gotagotejando o seu remédio aquoso sobre o solo. Chove ainda.
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