VF 25

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(do décimo andar do apartamento do meu irmão em Piracicaba) ..... Em todas as direções a manhã cobre a cidade de luz, principalmente nessa visão norte da sacada, a marchetaria das telhas das casas, o brilho de combustão de sódio em água na lataria dos carros descendo uma rua e subindo uma outra, o corpo do rio semovente entre as margens fixas, os carrinhos de brinquedo indo e voltando em silêncio sobre a ponte, à direita a Senador Feijó se erguendo na reta até o horizonte, à extrema esquerda a cascata que de noite daqui se ouve se acrescenta na malha crespa da correnteza marrom. Quatro urubus em espirais com as envergaduras calmas e negras sob o sol – aproximam-se três, suas sombras raspam rapidamente as casas, trocando de telhados em frações de segundo, com nitidez. O mutirão das árvores abarrota de verdes em muitos cantos, sai em esponjas verdes das fendas das ruas, ou serão as casas e as ruas que saíram de suas fendas verdes; no norte e noroeste e oeste a linha baixa, distante, de uma montanha plana. Minha sobrinha comenta nossa, que cheiro de cana-de-açúcar, mas infelizmente não sinto. Algumas casas do começo do século, século passado, quem sabe até de mais longe; uma delas, quase aqui na frente, tem doze cômodos – não é que não tenha telhas: não tem nem telhado; daí o desenho dos doze, a caixa-d'água seca sobre a quina, a flora selvagem do quintal abrindo as portas tomando as janelas desaparecendo o chão; no acesso à calçada duas janelas e uma porta ainda envidraçadas, fechadas. Na linha do nordeste uma palmeira solitária descabela o horizonte; na linha do noroeste uma fumaça – sobe, sobe, não tão alto quanto as várias nuvens agora algodõezinhos colados no papelão azul, não tão alto quanto aquele outro urubu, um quinto ou um daqueles mesmos desgarrando-se para espairecer num voo só, não tão alto quanto este avião bimotor: que se faz ouvir como a cascata à noite agora abafada pelos sons da manhã, da cidade. (Manhã iluminando de luz viva a urbe – o que já se antevia no passeio de horas atrás: por baixo de uma porta de loja semiaberta um cachorro se espreguiçava e – literalmente – farejava o sol.) O campo de futebol vazio a leste e vazias arquibancadas; a prata do observatório a nor-noroeste na ascensão do morro entre a fileira de pinheiros e na passagem da estrada; em curva as fileiras paralelas de postes com as cúpulas equidistantes, equidistantes joaninhas de luz vibrando em finos cabos; o mecânico lavando o carro sujo, o som do jato chega depois. Muito bem, cosmos; parabéns à cidade, parabéns à manhã, parabéns ao meu irmão – é hoje aniversário (dele).
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(mais campos do Estado) ..... Entre pastos com cupinzeiros uma pequena estrada de terra batida margeada de árvores, sem gente, sem carros, sem bichos grandes, sobe o seu caminho de destino incógnito; está em diagonal, à parte das retas movimentadas da estrada. No barranco cortado a faca lê-se em letras brancas de cal bem traçado uma frase dizendo mais ou menos SÓ EM JESUS CRISTO ESTÁ A ESPERANÇA, e na quase insolência de seu branco ignora que também pode estar (a esperança) no viaduto erguido com cuidado, no próprio cuidado do barranco, nos carros, nas pessoas neles ou passando rápido sobre o asfalto, nos caminhões ou treminhões transportando. Um gado branco às margens do vilarejo; uma usina enferrujada aparentemente aos pedaços mas funcionando; a sombra de uma nuvem grande descansando no meio da subida das duas estradas – ou melhor, a grande sombra de uma nuvem. CALDO DE CANA CALDO DE CANA COCO GELADO LARANJA CALDO DE CANA ABACAXI JABUTICABA, às vendas na margem da estrada, 2, 1, 1 real e 50, 80 centavos... A 1 km a entrada para a cidade: “Praia Azul”, em pleno Interior. Dependendo do jeito que se olha a faixa do chão ela não está parada: persegue o carro, disputa-lhe corrida com ímpeto igual. Uma outra placa com letras brancas sobre verde: SÃO PAULO – e uma seta em pé do lado dizendo eu digo em frente. Gradualmente o céu parece fechar-se na direção indicada. Habitações espalhadas, morros, matas, escampados, gados, águas, verdes, terras, aves, céu, outras estradas... não se vê o final – como na pequenina estrada –; os cientistas dizem que a Terra é redonda, por isso a incógnita, bem podem dizer também é um país vasto, é um mundo imenso, é um ramalhete de fronteiras que se encaixam, que só existem na nossa cabeça e não param em ciclos dando a volta. Pensa-se na sensação montanhosa dos vales, dos campos, dos mares, das cidades; pensa-se nas gentes habitando a fina crosta; pensa-se em Central do Brasil, na Dora, personagem da Fernanda Montenegro que faz sentirmos que ela sente a sua “saudade de tudo”.
........... (mais próximo de São Paulo) ..... Depois de uma curva os dois picos do Jaraguá. A natureza e Sampa, a mata e as casas. E casas. E casas.
........... (em São Paulo) ..... Trânsito. De certa forma escampados, grandezas de outro tipo. Do som – ironicamente? – Gal Costa canta Corcovado. O guarda de trânsito de sua guarita observa com elegância a morosidade encadeada dos carros; um monge do alto deste “templo”. O sol se mantém.
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(cf, 21h39) .... A chuva, quase.
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17 11 99
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