VF 26

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(cf, 0h e pouco) ..... A Lua dá à luz a luz sobre a cidade. Com relâmpagos. Curiosamente a leste (da janela) ao és-sueste (da bússola) uns relâmpagos tremem num céu liso a princípio sem nuvens. Nunca vi isso, quem será que vence a disputa, ou não será uma rusga, luar e choques tiraram a noite para cruzar juntos a abóbada.
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(cf, 2h e tanto) ..... O luar carimba uma placa de prata por dentro iluminada no centro do quintal. O muro sobre o bambuzal, encharcado. No silêncio – silêncio em São Paulo é modo de dizer, mas digamos – no silêncio um único pássaro, sururina não deve ser (mas digamos), a sururina canta só, um solo, uma ópera, particular (para todos). Não há ó gente ó não luar como esse do quintal. Não há ó gente, luar como esse, de qualquer lugar.
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(cf, 8h57) ..... O Sol. Vivo. Vital. Este astro a que quando se olha direto cega.
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(dos óculos) ..... Atravessa-se uma feira de ponta a ponta e o que aparece são pessoas de todos os tipos dizem que de uma terra chamada Brasil. Em que outro lugar do mundo assim, pensa-se, há tanto colorido? Claro que em Nova York ou Paris há de haver de tudo, mas aqui, corredor de barracas entre coreanos japoneses pretos brancos magros baixos gordos altos cafuzos loiros ruivos morenos mulatos vendendo ou comprando ou apenas passando como eu e todos falando o dia-a-dialeto brasileiro do português, sente-se que se está “no mundo”, enquanto nos outros povos de seus primeiros mundos adiantados talvez seja um cosmopolitismo de vários mundos, misturados, aqui cada um já somos um misturados-em-si. Na mera feira da ruazinha de São Paulo de repente um quase nacionalismo desbragado, olha a manga olha a pitanga freguesia, quem diria, tamanho ego sob o sol a pino de todos; à parte malditos chauvinismos, ou à parte xenofobismos malditos. (No fim enfim não só passo, também compro: um copo de caldo-de-cana gelado com limão – 1 real, na verdade caro, mas valeu. Depois me lembro: esqueci de ver se tinha o coador de pano pra café. Cana e café. Ser brasileiro.)
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(fc) ..... O Sol emplaca tudo. “As sombras são os desenhos que as coisas fazem”; “as sombras são as noites próprias de cada coisa”; “as sombras são as amigáveis tatuagens que as coisas cravam efêmeras” – frases soltas, possíveis, para revelar o que as próprias sombras traduzem, efêmeras e grafadas como frases.
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(cf) ..... As nuvens como caravelas desenhadas. Não importa que seja improvável, não importa que seja batida a metáfora, não importa que ninguém acredite: as nuvens como caravelas desenhadas. Exatamente.
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(dos óculos de dentro do carro) ..... Na lanchonete de esquina uma placa: TEMOS CALDO DE MOCOTÓ; logo abaixo: HOT DOG. A loja à esquerda chama-se RIHAPPY e o nome da lanchonete é LANCHES URUÇU. Na avenida coco à venda: uma ave bonachã de asas gordas é o pequeno acento sobre o primeiro o. A igreja que meus pais julgavam ecumênica não tem nada de ecumênica: é a catedral ortodoxa metropolitana; logo à esquina, próximo ao bololô conturbado do início da Paulista, uma estação do metrô: Paraíso. Sem dúvida também indícios – de dizer eu sou, tu és, nós somos brasileiros. (É até difícil, dirá um conciliador preocupado em relação àquele antigo assunto do chauvixenofobismo; o Brasil é justamente a polifonia, seria contraditório. Ou será polifobia? com campo de concentração e nazismos, mas com todos trancados dentro, juntos?, dirá um outro, provocador, amante das polêmicas.)
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(cf, 8h07 da noite) ..... Eu queria dizer:
........... A Lua de novo. Será mesmo a mesma?, pergunta uma lógica dentro da lógica.
........... Mas está nublado. E choveu. E venta.

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(fb) ..... Um cão fareja na rua as sobras da chuva.
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(cf, 22h25; a cama iluminada e não acredito) ..... Agora posso; possuo-o, direito:
........... A Lua de novo. Será mesmo a mesma?, pergunta uma lógica dentro da lógica.
........... A Lua de novo – cheia.

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23 11 99
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