VF 28

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(da do metrô) ..... Aqui não tem paisagem, não tem lua, sol, a luz é artificial, e tudo o que ela atinge são paredes de concreto em alta velocidade; a visão chispa e se rebate, volta-se de volta pelos vidros, faz o caminho da luz, dirige-se adentro: cheio, vários de pé, bem do meu lado uma moça e um moço, conversam, meus olhos fingem escutar o homem sentado (que apenas olha quase morto o tapume de pernas) mas meus ouvidos a olham, ela diz: “você acha que eu não gosto? eu gosto, eu me dou bem com cidade do interior, mas não dá, agora não dá. Não é hora de umas mudanças assim, é hora de investir, eu tenho investido muito, muito, todo dia, é hora de plantar pra colher mais tarde, se é que vai chegar esse dia da colheita... é hora assim de ir plantando aos pouquinhos, sozinha, regar um pouquinho ali, ver uma folha crescer aqui, afofar a terra; é... é bom, é gostoso, né? ...mas quer saber, acho que o mais gostoso é quando chega a hora de compartilhar, acho que aí é que é o melhor”... – palavras textuais não digo porque não gravei em áudio ou vídeo nem outra tecnologia, foi só na tecnologia movediça da memória, mas posso dizer que são quase, praticamente; ela falava carinhosamente, amolentada, a cabeça apoiada no braço sobre o ombro com a mão se socorrendo no alto do amparador; olhava o moço, o moço, calado, a olhava; íamos todos silvando no deslize à próxima parada: a Liberdade – sem força de expressão; palavras textuais e reais. Sob a terra, mais ou menos (mais mais do que menos) inconscientes de onde estamos, por debaixo do quê passamos, do grau da luz do dia sob o qual cavados atravessamos, seguimos – seguimos. Há o sacolejo; às vezes um respiro, como se túnel e vagões trocassem um fôlego; ou é do contato ininterrupto entre trilhos e os carretéis dos “pneus de aço”. Numa diminuição inexplicada até a imobilidade talvez como retardamento antichoque ao comboio que ainda não saiu da próxima estação, pode-se ler nos quadrados do concreto – um favo a cada letra de forma – iluminados pela luz que vai de dentro do vagão: BAH, escrito meio tremido, a giz branco.
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(“, de noite) ..... Saindo do Brás, sobrevoando sua ponte, o que se tem não são as casas, a luz estrelada dos postes, os galpões, os edifícios, o rio, as avenidas as ruas, o céu na cidade, a cidade passando, o que se tem diante é o tempo, o tempo que, passado e presente (atravessado e mantendo-se), se assiste de dentro. O Charlie Parker do conto de Cortázar está sentado à janela e re-sente sua tese: aqueles quinze minutos e ao mesmo tempo são só um e meio, estamos metidos num relógio, Bruno, num relógio é onde estamos metidos, “o metrô é uma grande invenção”. Parados na estação uma outra corrente de carros chega e para paralela no sentido contrário: aqui estou sentado, o vagão folgado na sua reta leste-centro, o outro, no seu regresso de centro-leste está cheio, repleto de gentes, de pé, de cansaços, de desânimos, de olhos fechados, de revistas abertas, de algum jornal, de algum livro, de algum embrulho ou sacola onde houver espaço, são irmãos siameses a todo lado, siameses que mal se falam, que se desconhecem, que se veem diariamente. Seguem os movimentos e passam os outros vagões irmãos: todos cheios todos cheios todos cheios.
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(do ônibus) ..... Aquele homem passageiro do mesmo ponto que eu tendo passado em silêncio a sua viagem de 1 a 2 quilômetros olhando a paisagem através da janela do outro lado do corredor, agora salta e anda na calçada – na mesma direção que o ônibus – mas, apesar, quanto mais anda mais se distancia porque o ônibus anda mais. A sonoplastia é o motor.
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29 11 99
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