VF 29

.
.
.
(18h e não sei quanto) ..... Pela da televisão: anunciam que “neste momento” há cerca de 214 km de congestionamentos em São Paulo, e pela de cima dos fundos ninguém diz: duas moscas namoram se rebatendo no vidro, o tempo sobre o telhado é nublado, silencioso, agradável com o cinza das ondas de nuvens iluminado e na temperatura nem quente nem fria já que um quase-vento ameniza o verão vindo; quem olha pensa que São Paulo e paz são sinônimos. Como engana uma visão que alcança pouco, como é bonito uma visão pequena mas encantadora, como agrada a ilusão de não ver e se achar distante dos engarrafamentos.
.
*
.
(janelão, noite) ..... A chuva ilha a cadela doberman na beira da porta da lavanderia. Ela quer correr, vir, brincar, continuar solta no quintal onde até agora há pouco podia; olha com as orelhas de pé a minha cara a olhando de volta; não entende, por que daqui pra frente não posso ser livre, que choques são esses que caem de cima, que luz fria é essa que recobre as cadeiras as plantas a área em que eu ia quando antes era só seca e só boa. Raciocina, cisma, insiste, compreende ou não compreende, cede, se compadece de si, gira, recolhe-se à lavanderia.
.
*
.
(TV) ..... A moça bonita do jornal fala: a sonda espacial daqui a pouco chegará em Marte, daqui a pouco pousa e daqui a pouco começará a colher mensagens de lá.
.
*
.
(cf) ..... A cachorra mantém-se recolhida. A chuva nos visita ainda, numa pausa ouve-se o bebê da vizinha, que chora, a luz amarelo-intermitente do caminhão de lixo atravessa o corredor da casa e atinge a árvore, as paredes do fundo, e passa, os congestionamentos com certeza diluem-se mas normalmente são uma dessas poucas substâncias que anormalmente não se diluem com a chuva: intensificam-se. A sonda se aproxima. Haverá sol sobre ela? O choro cessa, a chuva ainda, a doberman dorme.
.
3 12 99
.
.

Nenhum comentário: