VF 30

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(cf) ..... Céu de prata. A sonda marciana parece que não deu em nada. Os cientistas esperam contato mas ela se nega a mensagens. A doberman late no portão do corredor. Quer brincar, quer que joguem a bolinha, quer companhia, quer que os humanos façam alguma coisa. Um carro raspa o caminho da rua como uma faca cortando estopa. Uma faca rápida, afiada. O céu continua prata por trás da copa que balança. Balança a copa, não a árvore. O verde espana a prata e ela continua íntegra, não chove. A NASA deve estar desanimada, a doberman late. Vou passear com ela. (O céu que contém prata agora abre um balão de azul sobre as pontas finais da copa espetando-o quando por acaso levanto a cabeça depois que escrevo.)
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(fc) ..... Não fui passear com a doberman. Fiquei escrevendo, perdi o tempo, meu irmão já tinha ido. A rua dá um show de facas. Espanta não ver as estopas sobrando, retalhadas, obstruindo as sarjetas e bocas-de-lobo. Sobre o telhado da casa da esquerda pode-se ver o alto do portão da casa do pintor do outro lado – do outro lado da rua, à esquerda, mora um pintor. Dá vontade de pôr um texto, à la dos antigos vestígios nos troncos do parque, de algum trecho de por exemplo Matisse, Miró, Rodin, bem de frente no portão do pintor e ver se é visível o que ele reage; como daqui não é visível o portão de todo nem o lugar imaginário do pintor olhando, não ponho, ou poderia ser um outro texto, “para todos”, num dos postes que se enfileiram esses sim devassados, mas não me vem texto à mente, talvez depois, e a carnadura dos postes não é tão receptiva quanto a dos troncos.
.......... É noite. As casas acendem seus amarelos. A vizinha da direita sai apressada com a sua filha e entram no carro; o liga, lanternas, faróis, pisca-pisca, entram no fluxo sanguíneo do trânsito – no seu fio, lâmino. Dois cilindros de papelão encostados no tronco, sacos de lixo encostados no poste, o carro escuro e grande entre ambos estacionado; a velha cadeira vazia do vizinho, as rosas, a luz de um branco frigorífico saindo do alto do poste. A noite continua viva.
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(“, + tarde) ..... Um garoto passa de bicicleta, no sentido vizinhacomfilha-casadopintor, levando um outro no guidom e esse outro leva um outro pneu de bicicleta – paralelo ao que gira, paralelo aos que giram, os três mais os dois garotos todos de perfil, paralelos (na mesma linha), passando. (Os três círculos dos pneus assim vistos formam um triângulo reto com o cateto pequeno frontal; com os dois garotos, é um outro tipo de sentido geométrico, inominável.)
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(cf, + tarde) ..... Silêncio, a dorme, a prata do céu é agora impenetrável, tem uma máscara incolor de nuvens vazadas, incolor porque triste, ou incolor porque vaga, claro que é de um cinza, um cinza sem nome, um cinza anoitecido pela luz da cidade, cinza que desaba sem chuva a compreensão do que há por trás, a prata é indevassável, o que se dirá o azul. Os bambus no muro parecem um tapume vedando a passagem; que passagem?, a lógica diz que só há muro, muro, dorme; o bebê não chora, os carros não cortam. Que som será que soa quando a sonda sonda a areia de Marte?
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6 12 99
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