VF 31

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(cf, 1h) ..... Noite clara, nuvens baixas, a luz da cidade repercute no seu fundo, a da Lua, se há, não passa. As gotas da chuva estalam um pouco e um pouco, um pouco e mais outro, se calam, estalam, calam-se. Um cachorro late muito longe, mas não deve ser tanto, em se tratando de São Paulo sempre um mais longe ainda é possível. O ruge-ruge da avenida, também distante, como o cão que late.
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(cf, 2h a mais) ..... Idem. - o cão, - a chuva; + outro cão, mais agudo, agudo como o friozinho do vento, agudo como o amarelo da vasilha de água da doberman, ainda amarelo no escuro.
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(6h6, vitrô da cozinha) ..... No céu um lilás que parece de mentira, película plástica daqueles óculos de papel, de um lado carmins de outro lado anil, próprios a 3as dimensões, aqui misturam os dois num lilás, só, suave, entre nós e o céu, película real / plástico de nuvens, vedando a passagem à sua 3a dimensão.
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(cf, 7:16) ..... A luz da manhã se abre, página em branco na atmosfera.
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(cf, 7:26) ..... A página da manhã é lida? por todos nós é lida ou ainda a ser escrita na primavera.
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(cf, 14:02) ..... Um altíssimo céu, nada de novo: de novo branco, folha de papel. O ladrilho plastificado por uma lâmina d'água; um pingo central cai do telhado, ele e a gravidade, o xaxim com a orquídea virada em sua direção fica olhando. Passa um avião; o ouço passar, não vejo.
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(16:33, cf + um óculo dos óculos) ..... Um pássaro cai de cima a baixo no firmamento metálico dentro da lente à direita, claro que é reflexo, ou se esborracha num chão interno, outra dimensão que não há.
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(cf, quase 19) ..... O cachorro já velho da vizinha, baixo amarronzado de rabo comprido, o balança, o balança porque anda, anda de cabeça baixa, não porque alegre. O amarelo da vasilha agora está no centro, quase debaixo da orquídea que olhava a gota, menos quase debaixo da cesta de basquete vazia, lembrando aquela antiga biruta no terraço do prédio. A cachorra, a doberman daqui, sai de sua toca-lavanderia e cheira o domingo, parado, à exceção de um certo estremecimento das folhas, do tremor da malha de nuvens quase se movendo como um mangue.
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(fc, noite) ..... A rua dá passagem mas nada passa. Garagens vazias, manchas da chuva, a luz estática no poste, as plantas imóveis, o caixote equilibrando-se na esquina sobre o lixo do açougue. Uma moto contraria a frase; passa; já passou. Talvez passem carruagens de almas, talvez ratos e baratas por baixo, talvez um pássaro rápido, talvez o ar com micróbios dinâmico como não parece – mas o olho de mim e dos vizinhos não vê. Mais uma moto. Mais outra. O caixote não cai. Ouvem-se aviões e cachorros, e um cheiro de... neve, de tinta fresca da chuva, de frescor de ano... que se exaure. Em algum lugar o domingo é uma festa, não aqui. Aqui a festa está por dentro da calma do seu silêncio em que insiste em ser.
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(cf, 23:59) ..... Vento, a luz da vizinha multiplica dez vezes em sombra redonda o pequeno vaso, do meio dos bambus sai o talo de um – estigma? estilete? – sobressalente como uma antena de radar. (Talvez esse se conecte à sonda.) – depois volto a cabeça pela linha divisória e sem querer ela roça no enfeite sobre a janela e os cilindros de metal tililintam, tlim, tlim... de metal como as tecnologias intergalácticas.
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12 12 99
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