VF 32

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(cf) ..... Chuva. Sol. Sobre o telhado, alto, um arco-íris nítido como um farol, alça do mundo. Sobre ele outro, mais outro – alça-reflexo, sombra com cor. Na enciclopédia: fenômeno formado na atmosfera através da refração e reflexão interna da luz do Sol pelas gotas da chuva que cai e etc. e etc. Pode ser, mas aqui na minha janela não há só um “fenômeno da atmosfera”, aqui é a beleza em pessoa, alçada. Um avião passa, depois passa outro. O primeiro por cima, do ângulo daqui, por trás; o violeta lhe esfumaçando o metal quando curva. O segundo por baixo, o visita entrando pelo arco, sem bater porta, dá-licença, o acesso é livre, sem lei de pedágio, máximo como o corpo inteiro, meio-círculo, traçado. Talvez os do segundo sim, mas de modo geral os passageiros não devem ver: Todos os arcos têm o seu centro numa linha formada pelo Sol e o observador. Os arco-íris só podem ser vistos quando se está de costas para o Sol e de frente para as gotas de chuva iluminadas é o que também declara a enciclopédia. Mas não acredito, tem de ser visto a todo lado, é o que quer uma voz ingênua proclamando consigo, deveria ser mesmo um arco, concreto no seu peso, monumento, de luz e início, o primário das cores gestando, a luz, iluminada, para a luz e sombras. Não importa: arc-en-ciel, arco-da-chuva, da-velha, rainbow, arco-celeste, deve ser linda em qualquer língua a palavra. A palavra em todos os povos, e aqui esse ponto, com todo respeito, no privilégio de estar na linha formada.
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(“) ..... Grandes rombos no branco e nos núcleos cinza das nuvens. Mar em movimento. Ondando. O arco-íris já é passado.
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(dos óculos, do meio da rua) ..... O céu devassado, só uns restos mortais da mortalha dos gases. Azul. Escurecendo e luzindo e sobre e sempre sendo vivo. Longe passa um helicóptero no horizonte claro. Quase no zênite a Lua em unha; fosforesce.
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(fb; noite, mais tarde, 9 e 15-9 e meia) ..... Uma mulher toca a campainha pedindo dinheiro.
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14 12 99
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