VF 33

.
.
.
(cf) ..... A maré do ano novo não atinge os arranha-céus de nuvens, cinza embaixo, muito brancas no topo com o azul no fundo, não atinge a orquídea com seu lilás solitário saindo única dos ramos, não atinge as duas palmeiras almas-gêmeas paralelas ao banco, fiéis à sua existência diária; não atinge o concerto de Mozart que sai pela outra janela. Não atinge nem mesmo os pequenos aviões parecendo ir visitar a curva dos arranha-céus de cúmulos, mas não pousam, nem atravessam, passam por baixo, a jato. Mas nosso olhar sociológico impregnado de nossos conceitos creem, veem tudo: a maré atinge todos, todas as formas de mecanismos – palmeiras cúmulos pêndulos trânsito campos oceanos bichos subsolos a orquídea. Ou não é uma maré que vem: é uma antimaré de ano velho se esvaindo. Não importa – talvez diga o tic-tac de um dos corações oceanográficos; O último dia do ano / não é o último dia do tempo / [...] / O último dia do tempo / não é o último dia de tudo., escreveu Carlos Drummond de Andrade, a ferro, a fogo, num poema de passagem, Passagem do Ano. Pela fc como num banho a luz ressalta o branco dos cabelos brancos de meu pai em repouso na cadeira de balanço; pela da TV em Bangcoc já foi ano-novo e as mulheres do Quênia venceram a São Silvestre e Nova Déli também já vive nos três zeros. Fb: as roseiras abertas do vizinho quase oscilam com o vento mínimo; maré, vaga do suspense atmosférico. Do janelão: a cachorra está deitada como se a vida fosse simples, e sua pata treme rapidamente e volta à posição, e volta à posição e permanece, e permanece e ela é. Sobre todas: os fogos esporádicos se apresentam, com som com luz com fumaça, jorram, como as rosas.
.
*
.
(idem, + tarde) ..... Chuva funda. O toldo de plástico octaédrico brilha e treme na sua estampa florida sobre a mesinha redonda do quintal. Também foi um queniano quem ganhou a São Silvestre masculina. Outros papoucos se revezam com o dos rojões: um mais alto, dos trovões, outro mais baixo, dos balões lá da sala, às vezes explodindo de tão cheios.
.
*
.
(carro) ..... A chuva; forte se atira sobre seis motociclistas na avenida ainda sob a luz do fim da tarde; quando chega o viaduto estacionam, lá já estavam vários, são uns 15 a 20 motoqueiros e motos, sorrindo, encharcados, tiram capacetes e sacodem, à espera que a fúria líquida passe. No próximo viaduto outros: os que não pararam lá sucumbem a esse, são uns 6, 10, conversam, sacodem, assistem ao impasse. Numa praça pequenina de plantas esporádicas como os fogos outrora (e agora, parece, se calaram) uma mendiga com sua carroça de trapos está absolutamente exposta à chuva. Olha para o que mexe com as mãos e trabalha nos seus afazeres como se temporal não existisse, como se ANO-NOVO fosse uma notícia ao pé da página em um conto de fadas de um alfarrábio há dois mil anos fechado numa gruta selada sob as lavas de um Vesúvio ou de um dos vulcões em ação em Hokaido. Talvez separe presentes para os seus parentes imaginários, talvez ajeite a ceia na mesa da casa em que crê que more, talvez estique um pano para secá-lo. A carroça só não transborda pois é cheia de frestas. À virada de uma rua dois sacos de lixo pretos soltos no asfalto. Sinal frio dos tempos, caos destilado, apocalipse líquido?
.
*
.
(cf) ..... É a última noite dos novecentos, céu seco, sem mais pingos, chãos úmidos, cem mil brilhos, os rojões dão a cara de novo, as luizinhas do bambuzal se acendem e se apagam em silêncio como um ritmo corporificado, lento. Daqui a muito pouco o Times Square explode, literalmente mas nem tanto. Todos nós explodimos – e o recuo: como dizem os cientistas do Universo.
.
31 12 99
.
.

Nenhum comentário: