VF 35

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(carro, domingo, cedo) ..... São Paulo vazia como uma calma budista. Cheia de carros estacionados, dispersos, o asfalto molhado, o ar úmido, gelado se comparado ao de ontem, quase nenhuma pessoa passando, as casas, milhares, cada uma é um histórico, um modo próprio como os andares passo a passo, por mais condomínio fechado, por mais repetição de conjunto habitacional; dentro as camas vazias dos que viajaram, ou as muitas demarcadas dos que se deitam. Um coador na parede do lado de fora de um barraco, objetos espalhados num quintal de terra entre cachorros, um pátio comprido cheio de veículos, caminhões e carros, amassados ou sem pneus ou sem vidros, semidestruídos – parece uma loja para compradores bizarros, excêntricos para olhos rápidos, talvez seja. O verde da mata da estrada na ida. O contorno das colinas, a textura dos verdes, ora um barranco, marrom, ora um pedaço despencado provavelmente pelas chuvas da passagem do ano. O esparramado de uma fábrica em branco com seus ângulos retos; o gota-a-gota das placas sinalizando; o efeito profundo do céu nublado levando os campos para o fundo; uma casa na paisagem, três cegonhas sobre o charco. A mata, os campos, o gado e um casal de cavalos malhados no meio; a força das curvas da estrada se impondo (força frágil se se pensar num tornado ou em mil raios que felizmente não vejo); as parreiras, os triângulos os trapézios os poliedros das plantações riscados. A mata. Os campos. Agora há pouco aquele... aquele pedaço queimado e a plaquinha do Frango Assado como pediu que eu dissesse o meu sobrinho.
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(“) ..... Uma árvore parece queimada mas tem sua grande copa, viva. (Enquanto escrevia a luz sumiuvoltou repentina como se as letras entrassem num abismo – pausa de túnel.)
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(“, + tarde) ..... À distância num posto fechado de uma cidade sem nome um cachorro preto-e-branco todo enrolado dorme ao redor de nada só sobre o escampado do cimento liso a dois metros da quina da esquina abaulada.
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(“) ..... A saída da cidade de Piracicaba, meu irmão e minha cunhada acenam adeuses sorridentes da janela do outro carro pela bifurcação que nos afasta. Um pequeno mamoeiro, isolado, seus cabelos de folhas claras parecem receber o sol de chapa embora continue nublado; a neblina da chuva fina; dois pequenos lagos.
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(“) ..... A espada do canteiro da estrada indica a direção em frente – subindo, levemente.
........... A poalha da chuva se espalha sobre todo o Universo.

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(“) .... CALDO DE CANA GELADO, passa a placa. Aqui, ainda o gosto de café de antes da partida. Café e cana.
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(“) ..... A madeira sem folhas de uma árvore despencada à beira de um riacho, suas pontas tocam a correnteza como numa coleta, como numa pesquisa de qualidade. Um único poste precário de luz amarelecida aceso na estrada estreita, adjacente. Um tronco baixo – só tronco, queimado, escuro, sem galhos – parece o vulto de um ser humano entre o conjunto de altas árvores.
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(“) ..... De Beethoven um Concerto para Piano pelos fones de ouvido: impressionante, por exemplo se pega uma mata atlântica, como recebe as grandes músicas, na sua fúria, sua singeleza, sua existência se espalhando pra cima.
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(“, adiante) ..... São Paulo.
........... São Paulo.
........... São Paulo.

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(fc) ..... As gotas são tão finas que não escorrem o vidro, pulvilhorizam-no, marcam pegadas de pó.
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Pela janela do telefone minha mãe falando em Manaus com minha tia: ...foi tudo bem aí, feliz ano-novo, toda a felicidade, prosperidade para nós todos – e quando diz se Deus quiser soa um se Deus quisé... sse, inaugurando um curioso futuro pretérito.
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2 01 00
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