VF 36

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(cf) ..... Água. Cai em cordas pelos caminhos entre as telhas.
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(fc) ..... Água. Todo barulho é dela. Passa rápida numa minicorrenteza sobre a rua – a sarjeta sumiu. A árvore não balança tanto; venta mas o vento não penetra a chuva. O sertão pode virar mar mas o Brasil vai virar rio. Rio trágico, rio de ex-gritos, um rio de muitos mortos, de móveis, de bois boiando – um rio que por mais caudaloso será apenas rio para si mesmo. As gotas, cheias de excitação em seus pesos, apostam corrida; querem chegar apressadas embaixo, ou para dar espaço às outras que vêm de cima na fila ou de pura pirraça ou de acharem-se em vidro ou de pressa como paulistas voltando pra casa ou indo ao trabalho. Os sons continuam sendo o do líquido, do alto, de quilômetros, chegando e se unindo em nossos cantos todos – nem todos, para a felicidade do seco, nem todos para a felicidade do respiro.
........... Um raio cai de repente. Aparece sem nenhum tipo de aviso, mesmo porque o seu conceito de tempo é outro, resquício cheio de personalidade. O corpo da luz se autorretrata por trás e por cima da árvore por muito menos de um segundo, nítido, claro(evidente), queimando a retina da paisagem. E o estrondo quase louco que treme, podendo arrombar tudo, eletrizar os escombros, pó molhado e um charco gigante, num sopro. (Por um momento parece que a energia de casa foi para os píncaros, pois houve(ouve-se) um estalo.)
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(cf) ..... O vaso da palmeira alagado, a base dos galhos com alguns quebrados marrom de terra a sujando, amostra de arrozal na guerra do Vietnã. A migração dos trovões, parece, se desloca para outros estados. Ou para o oceano. Ou vão, parados, se transformando em ar-calmo.
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(da rua) ..... Os Céus, os Deuses, a Natureza, os aparelhos do meteorologista entraram em acordo e decidiram sobre nós, sobre os toldos, no ar que respiramos: prata.
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(de todas) ..... Um trovão grosso, como disse o meu pai: “seco”, como imagino (ainda bem só imagino, não sei) o final de uma bomba – começo para os feridos –, mas a queda dessa sem nenhum agudo de percurso aéreo, trovão perdido ou sádico por natureza, de emboscada, logo quando o conflito da tempestade parecia ter se dissipado de vez.
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(fc) ..... O vizinho na sua cadeira de camarote vê a chuva passar e a passar a mulher de rosa e o seu guarda-chuva estampado de flores.
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(noite, fb) ..... As paisagens desta e do janelão, uma de cara-a-cara à outra, se atravessam dentro da casa. Lá fora a noite é pacífica, como uma visão curta é capaz de enxergar. Ou muito longa, sem dúvida, concordemos com os otimistas. O frio olhar salta pela janela, como no poema de João Cabral, mas não vai longe, descamba, se esparrama na luz fria do poste sobre o asfalto (fria pelo frio olhar?), no branco do muro da casa ao lado, no bico da ponta das grades sobre o muro, no ar, ou pelo seu Outro – janelão-reflexo desta janela de baixo – por exemplo o cadeirão ou banco de três lugares inclinado para escorrer o molhado. Molhado estacionado; a chuva, passada. Passado até que venha uma outra, diferente, e tão chuva quanto todas.
........... O canto sem palavras de um homem, parece bêbado, dentro de alguma casa “pra lá”, direção-açougue. Ou é na rua mesmo, mas o som não anda e o vejo (aqui dentro, na janela do pressuposto) estirado na própria cama ou sala ou quintal, garrafas vazias, só um gato o olhando pois os conhecidos se foram. Pessoas não passam, nem carros – só de quando em quando, muito dispersos. Só o latir fiel de cães longínquos. Só o zim de um mosquito. Só os estalos da casa, de seus habitantes, vivendo; silêncio. Ah: a cigarra já de praxe na rua ou na copa da árvore, no telhado ou na minimata da vizinha. (Ah: O frio olhar / volta pela janela / ao cimento frio / do quarto e da alma, também diz o poema. É melhor ir dormir?)
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(cf) ..... Um cheiro quente, é o calor da grande lâmpada de fora acesa por alguns instantes.
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7 01 00
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