VF 37

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(fc) ..... A rua está deserta como um domingo, que é. Garagens vazias, o açougue cerrado, janelas trancadas, ensaio de debandada, desocupação certeira para o fim dos dias. Meio-dia, meio-dia e meia; o sol, há muito tempo fechado, volta agora a toda, entre nuvens, esta pequena, sutil que se vê da janela tem a forma de um peixe bem paralelo ao horizonte – o fim da cauda é uma exata lua minguante, ou seria crescente com duas finas pontas, a boca ri, humana, e sobre a cabeça há um pensamento solto, redondo. Vozes distantes, do vizinho, ou invisíveis da rua ou daqui de dentro na cozinha ou na sala, distantes, inidentificáveis. É bom ouvir as vozes, é bom reter o sol, recebê-lo, assim de volta, é bom os mil detalhes das folhas da copa da árvore da calçada, é bom a brisa, na pele, é bom o gosto da luminosidade; é bom assim mesmo: por extenso com todas as palavras. É bom ter as duas janelas escancaradas uma ao lado da outra como estão. O peixe lentamente mergulha atrás da árvore e desfaz-se no ácido azul.
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(cf) ..... Pra variar um avião passa, gangorra de subida na sua curva bem visível sobre o voo. Três objetos: uma grande nuvem embaixo – cetáceo sereno, alvo, alvo, alvo –, o avião e seu traço deixado em quase movimento, e o grande céu azul – ou o grande azul do céu, o grande azul do grande céu, pronto. Um quarto: o som do avião, velho ronco, rolando o seu roo sobre nós.
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(carro) ..... Desde o aeroporto na 23 de Maio se cruza a cidade, rumo Santana, Campo de Marte, o Tietê passa embaixo, Voluntários da Pátria, pega-se a Av. Água Fria e vai-se embora – norte. Até dar aos pés da Cantareira; o Horto. No céu grandes nuvens mas grandes vãos também. Famílias passeando. Os cisnes de pedal levando nas costas as pessoas no pequeno lago; a chalana com outras contornando a planta aquática do outro; no trem oncinha você faz um passeio – é um trem de vários vagões de roda com um trator que puxa, trator pintado e com cara de onça, as pintas se prolongando até o rabo; um palhaço pula sobre os elos e entrega pirulitos, enquanto a onça anda e sua cabeça (locomotiva) apita. Na volta, não do oncinha mas de Santana, um temporal dos diabos; durante um trecho muita chuva e muito sol ao mesmo tempo sobre o carro selado – de um lado céu aberto, em cima e de outro céu negro e raios. E direção ao Centro céu ameno, no sul sol, cidade louca.
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(cf) ..... O azul do fim da tarde azuleja tudo de azul com mais azul escurecidos, azulesce-nos: é azul as casas, azul as árvores, azul telhado, azul invadindo a luz chegando dos postes – azul somos; acalenta-nos, entorpece.
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(cf noite) ..... Uma estrela, duas, três... mais. Há quanto tempo.
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Sobre a mesa a janela do jornal: PAULISTANOS AGRIDEM MENOS E MATAM MAIS – !?, a doida realidade da manchete de hoje.
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9 01 00
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