VF 38

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(janelão) ..... Ainda é bom escutar, sentir a brisa (tato e aromas que vêm nela), é bom enxergar e sentir o gosto do dia; é bom não ser surdo; é bom não ser cego; é bom ter as papilas e o olfato e as células sensitivas; embora, tudo, de modo tão limitado. A visão que se tem dali por exemplo não é grande coisa: o paredão com a parede embambuzada na metade de baixo, as janelas dos fundos uma aberta (a menor) outra fechada com a gelosia emadeirada, e mal se vê o céu desse ângulo à mesa. A toalha branca/rosa/clara com sutis estampas em curva, balança e recebe o sol de chapa de um modo que parece inclinado só para iluminá-la; balança, recebe a luz, e parece ser a própria luz tecida, em branco, em rosa, em curva, pendurada. São umas 10:30; mal se vê o céu desse ângulo, mas vê-se a orquídea por trás da camisa verde-clara pendurada como a toalha só que mais próxima da porta, veem-se as duas palmeiras sofridas com as mordiduras da cachorra, veem-se as cadeiras, duas bastante inclinadas duas só apoiadas na borda da mesa uma no seu estado natural, como numa conferência. E há os cheiros (como o desse momento, do cocô da cachorra), há a visão de muito mais sutilezas, há a sensação da brisa da folha da roupa e da minha cadeira (ou do cabelo na cabeça ou da pele sobre o corpo), há a música – ainda que fira o gosto de músicos – da vida da cidade grande, há o sabor amanhecido na boca. Mal se vê o céu – mas na trincha visível ou nele na toalha ou agora na cúpula do guarda-sol, pode haver um pó ou pode ser um braço ou mais um grânulo finíssimo das matérias de luz ou escuras do Universo de que falava hoje de madrugada o astrônomo na entrevista da televisão.
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(de janela nenhuma a não ser a das ventas) ..... Por falar em odor, por falar em perfumes, o aroma absoluto das mangas no balcão da cozinha.
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(fc) ..... As duas árvores dois guardiães cabeludos uma em cada ponta da casa. No vértice dos telhados da vizinhança o laranja claro, vivo, do rasante do sol se pondo se destaca e se quebra em partículas por trás das folhas da copa. A luz que sobra, adormecendo, azula o lençol branco da cama.
........... O vizinho na sua cadeira observa, observa, observa.

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(fb) ..... O poste quebrado faz da rua um caminho aberto mas na penumbra, a qual só vigia a janela e a janela da porta do vizinho, dois amarelos quadriláteros trançados de fasquias metálicas. O verde da casa inexiste, está guardado ou morreu nas cores das sombras. Pergunta: como será de lá a visão da vigilância da rua? – nos dois amarelos há cortinas, fechadas, mas o olhar imaginário atravessa e se posta entre as fasquias e para cá olha: outro retângulo luminoso, com alguém dentro, fazendo o quê?, talvez a vigiar o que acha.
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(cf) ..... Através da luz de dentro do quarto as quatro retas da janela se projetam na parede do outro lado, na madeira fechada da janela de baixo, na casinha de comida para pássaros agora espantada pela luz falsa, na sombra do penduricalho que ela mesma projeta dentro das retas. Diz-se retas mas na verdade se quebram nas quebras da parede colada à do lado e no chão que também pegam, na saliência de outros objetos, no acréscimo de outros escuros; por exemplo o da minha cabeça que também se desenha no chão e na outra janela, quebrando em baía a reta de baixo.
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(“) ..... O primeiro ar parado do ano, o Verão e um de seus empregados, recurso sempre estranho, fixando as poucas nuvens no alto, imovendo as plantas ou as pétalas ou a banheira de bebê da vizinha, pendurada (a banheira) no varal como gota.
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11 01 00
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