VF 39

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(cf) ..... O céu de São Paulo é um enigma. Há mais de um dia: aquele azul que a gente encara encara e só de tanto encarar vê que não é azul, é cinza; depois o extremo oposto, o tom indefinido parece o de um cinza opaco, vê-se de um ângulo mais amplo que apesar de tudo é azul, um azul que se sublinha conforme maior é a área; depois chuva, chuvas – uma delas grossa, em que cada pingo dá alô, não durou mais de 20 s, jorro de helicóptero anti-incêndio –; depois ainda, à noite: lua. Hoje nova guerra de nuvens na disputa palmo a palmo sobre o tapume solar. (Solar no sentido em que o tapa – ou então é dele, sol, não querendo mais iluminar, se gastar na nossa pele.) Agora abriu; grandes nuvens se retirando, as leves montanhas caminhando como desde o tempo em que as pesadas eram um só chão; e a lua: agora no azul indiscutível, em destaque e destacando, seu branco, seu relevo, seu resto carcomido (o que dela o sol não revela daqui é azul), luz, canhão, chafariz, mais luz no dia luminoso. Vejamos amanhã, o que do futuro? Talvez um pós-choque-atômico não tenha céu tão temperamental quanto estes nossos. Fica um espaço, só para “termos cerúleos”, assim compondo um painel rápido de passado-presente-futuro, coleta aleatória para se decifrar o enigma: Espaço amanhã (em que quando for será hoje mas em relação ao agora é que consta):
........... [Bem cedo azul escuro depois claro, depois à hora do almoço muito claro mas branco, aquele branco que quer ser prata, escandalosa de céu nublado mas fino senão não passava tanta luz (um incenso de ritual das deusas ártemis mistic proteção aceso no centro da casa a aviva mais, a gritando), depois sol, sol, sol, depois nuvens nuvens nuvens mas não chuvas e mais chuvas como previa a iludida meteorologia de ontem, as nuvens, enormes, passaram a tarde atravessando seus grandes volumes de lá pra cá, analisando se alagavam, se só davam um sufoco, não deram nem um nem outro, passaram, imensas como sempre, efêmeras, e agora a velha nossa lua, pedra bruta, sorridente como a felicidade, sem mácula. – O que não deixa de ser um minipassado-presente-futuro em céu tão movimentado, concentrados em hoje, ou um mero amanhã de ontem já que pertencente no mundo desses colchetes.]
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(idem, ainda hoje; presente) ..... Parte de um dos bicos da Lua, mergulhado no véu de uma nuvem, como um biscoito.
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(“) ..... Calor. Todas as janelas em descerração geral para que o vento que não move suas cortinas, entre. No segundo quintal vizinho a folha da bananeira aberta em curvas verdes à espera de que alguém lhe escreva uma tradução. As romãs e suas pétalas em nenhuma espera: apenas intumescendo e vibrando o vermelho em seus verdes. Não sei que tradução. Poderia ser a dela mesma, poderia ser a de quem escreve; poderia ser a do sol fabricando o verde e as suas curvas semiabertas. Tradução; tradução: o nanquim de uma tinta negra se escrevendo sobre a superfície, durante e enquanto (e para que isto mesmo se mantenha) a bananeira vive.
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(fc, noite) ..... Estrelas. Uma... duas com esforço.
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(fb) ..... Nada de mais.
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(janelão) ..... A sombra do xaxim, as duas palmeiras, as folhas paradas nelas, as cadeiras e a mesa, a luz imóvel do quarto, o muro de hera, o quintal quieto do lado, o traçado desfocado do piso, os ladrilhos vislumbrados, a outra janela, fechada, a de cima também, o tempo parado do olhar. O tempo parado no olhar.
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(cf, 21:45) ..... Luar e Lua, a Lua (até quando?) ainda dá-nos sua luz. Pare. Nasce bola para ser assombreada dependendo do ângulo dependendo do ângulo sendo sempre sombra dependendo do ângulo sempre sendo bola – nascendo, constante. Agora filtrada por uma pequena nuvem que também a emoldura. Uma estrela na ponta. Não venta, mas parece.
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(cf) ..... Lua lua lua lua lua lua lua dá vontade de dizer, na fácil intenção de que dissesse, tudo, muito mais do que diz.
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17 01 00
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