VF 40

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(cf, 5, 5 e alguma coisa) ..... O iluminador dessa longitude 46 tem os dedos precisos e bem delicados: o azul, a princípio escuro, vem chegando suavemente através da passagem, através deste corte a que deram o nome – janela –, através do ar visível já que azuleja, molhando as árvores, as telhas, com certeza todas as avenidas, molhando principalmente a renda e o forro da cortina. A temperatura se alvoroça, se agita esperando a mudança.
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(cf, 5 ou 6 e outra coisa) ..... Piam os pássaros, piam muito os pássaros. (De G. Rosa em Droenha: [...] piava o lindo-azul [...].)
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(“, pouco mais tarde) ..... Nublado.
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(idem, com 6 e 7) ..... Aberto novamente. (sem brincadeira)
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(da velocidade na estrada) ..... Uma casa sozinha, de quina, com uma face azul outra bege claro, parece duas em uma, simbióticas. No meio da mata uma outra, de dois andares e alta, estilo colonial de barro, entre árvores e com um trator na porta. Três pássaros em cima de um outdoor-só-estrutura; escuros sobre o madeiro branco, um mais alto sobre a ponta de um toco, os outros no traço deitado ao lado; movem as cabeças, dirigem-na aos outros, confabulam, fofocam do mundo. A doberman no meu colo vê a caneta escrevendo, não vê as letras, fareja a tinta e borra a folha. Um motoqueiro ultrapassa a paisagem com sua motoca e pelo estado dela (fina, suja, desmantelada e barulhenta mas não a ponto de se desmanchar) e pelo estado dele (fino, sujo, inclinado com o capacete e óculos frágeis chegando a cara quase sobre o pneu frontal) parece ser ele que a empurra e não ela é quem o leva. Uma grande construção, galpão de pré-fábrica, não tem teto nem a parede que dá para a estrada, a grande caixa inacabada tem apenas uma caixa-d'água destampada e jogada no chão sem piso (barro) talvez à espera de que a encham, à espera de que possa dar água a que a fábrica produza; curiosamente as paredes que existem estão bem pintadas – “curiosamente” porque mesmo assim é curiosa a impressão de abandono que passa, ou então a desistência às pressas quando a caixa-d'água sem tampa ficou largada seca no chão de terra. No gramado do barranco um filhote de cachorro sozinho, à vista nenhum de seus pais ou parentes, apenas quilômetros de mais gramas; ou aparecerão e o recolhem ou ele mesmo tomará o rumo de um socorro ou o trânsito é quem daqui a pouco o colhe – no entanto olha a vida no mundo e parece rir; se diverte com a grama, com os limites sem fim da paisagem, com esses mondrongos rápidos que não sabe se chamarem carros tampouco serem de perigo de morte. Uma árvore bonita de tudo com a luz que a rebate, pequena e baixa com a copa esparramada, a princípio aparentemente seria sem graça, mas com uma graça só sua, no jeito de ser fina, no jeito de ser contorcida, no modo de estar à margem da estrada, no modo de emitir um destaque, no modo de ser baixa e com a luz que a ilumina (ilumina o planeta mas a ela principalmente). Agora um novo gotejamento da visão – agora mais veloz que aquele antigo das placas: o dos vendedores de uva no acostamento da estrada, 1, 2, mais de dez, cada caixote aberto e à mostra à cobiça dos sabores mostra o enrodilhado do roxo e do verde dos cachos como alvos irregulares dentro das molduras, e UVAS UVAS UVAS em algumas placas anunciando o nome da tentação que tem nas cores. Na planície de uma inclinação a malha rija de uma cidade; na borda as ruas se roçam com os campos – aí, esquecidamente são de terra; não as asfaltam, nem por isso param de ter mais caminhos. Uma construção de tijolos mais ou menos cúbica com um telhado em ruínas está no meio do campo à espera de uma razão, de um martelo final ou de um guia turístico; torre medieval só ponta, soterrada pelos sedimentos da História. À beira da estrada o restaurante CABANA DO CAMINHONEIRO; nenhum caminhão à porta. Um silo enferrujado – cheio? ...de cereal enferrujado. O colchão de um canavial ainda baixo. A sensação inconfundível da estrada sobre os campos, dos campos sobre a terra; a sensação da terra... na Terra.
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(da janela da minha sobrinha) ..... As duas mangas que a princípio pensava serem dois pêndulos de bananeira já não avermelham tanto com a luz escondendo-se do sol. Da mesma forma os vermelhos fumegantes dessa árvore mais próxima, anônima. Da mesma forma mais à distância na goiabeira o pontilhado do amarelo em mil feito de goiabas. O sol mergulha... sai do trono deixando a capa arrastando, dizendo me recolho aos aposentos.
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(das do binóculo) ..... A Lua Cheia como o cúmulo de um amadurecimento entra pela ampliação das lentes e pode-se sentir seu corpo atravessando as retinas e dentro dos olhos. As nervuras de sua pele. A grande cratera de um choque passado por um asteroide ou outro termo ou efeito astronômico que desconheço com seus raios espirrados e o olho central no seu nordeste. No sul, sudeste, a agulha viva de um gigantesco pico montanhoso, imagino. O Branco. (Muita gente não acredita que “estivemos” lá. E é o caso de se pensar em acreditar ou não acreditar.)
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(“, + tarde, já entrada de amanhã, mas fica ainda hoje por ser parte do mesmo estar-de-pé) ..... A Lua ainda cheia, ainda no seu andar, no seu existo sempre, mas agora eclipsada, “o último eclipse do século, do milênio” afirmam os especialistas, a sombra da nossa casa sobre sua cara lunar, o suor solar está feito “chá” como o meu irmão comenta, a névoa de luz com a pedra ainda acesa por baixo se apresenta a nós, sabendo ou pouco se importando de que há terráqueos a vendo.
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(depois, da janela (para dentro) do quarto) ..... A lâmpada no teto, muito acesa sem cúpula, acrônica e à mão. Os cachorros da redondeza latindo muito; vamos ver amanhã se é da Lua, se é normal.
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(da memória) ..... A sensação da estrada; as frases passadas. Lados, alto, baixo, escuro; parecer, fixar, passar... – os verbos que aparecem sempre.
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20 01 00
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