VF 42

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............ [...] Senti então que iniciava um caminho de regresso, e que aquela experiência haveria de tratar-se, fundamentalmente, de uma experiência pessoal com base na paixão (sim, paixão; pronunciei para mim mesmo essa palavra); uma experiência que mudaria radicalmente o curso de meus acontecimentos, e que resultaria, entre tantas outras coisas, no fato de eu estar aqui neste momento, escrevendo isto que escrevo, olhando de quando em quando através da janela, como para ter tempo de respirar, testemunhando assim, também, este momento de um dia de janeiro em que, depois de uma manhã densa e abafada, uma enorme tormenta cor de ardósia se anuncia e cobre o céu, com o vento sul começando a enlouquecer as árvores.
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Sílvio Fiorani, O Evangelho Segundo Judas
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Já não é janeiro. Dia 2 de fevereiro (dia de festa no mar), daqui mentalizo a Bahia e saúdo Iemanjá. A manhã foi densa e abafada mas a tormenta em sua ardósia ainda não veio e o vento ainda não enlouquece as árvores, só se enlouquecem por outra coisa. (cf, há dois dias:) A luz do sol entra pelas pálpebras semiabertas (não: fechadas, semiabertas apenas porque a melodia da frase pedira). (cf, há horas:) Idem. Agora: de novo, sendo que nos dois últimos foi a luz em dois vestígios de um céu branco, aquele típico céu branco de São Paulo, inteiriço, em que a luz parece um alimento, creme inalcançável. No de anteontem era a luz redimida dos tempos, filha pródiga: parecia que há anos não havia sol e lhe permitiram que voltasse, sua fibra definindo muito bem as cores, as sombras, as coisas vivas (saltando a vida das coisas), delatando-as sem acusações graves. Ou gravíssimas, mas não tinha cadeia: tudo estava livre para que, unido, se salvasse pela gravidade intensiva. Ninguém me tira que um pedaço daquela nuvem – seu branco lento se esparramando em contraste, com o azul e o cinza, sua luminosidade – ninguém me tira que um pedaço daquela naquela pintura de obra-prima (a universal pintura, ver Os Lusíadas, 26, canto quinto) se o cortassem e conseguissem analisá-lo num exame avançado de laboratório, descobriria-se muita coisa além do que eventualmente não se acredita ser possível. De volta ao agora: o sol dá sinais de que retorna, seu claro entendimento, cáustico, imprimindo sua marca registrada de renovamento como no outrora de anteontem; são novas nuvens, de um mesmo contexto, não haverá nunca outras como aquelas de anteontem no entanto é a mesma seda que esgarça na textura dessas. A mesma amoreira que alimenta o bicho que as fabrica, indireto. (Indireto, se é que não me entendam, porque o bicho fabrica a seda, que se esgarça, e o próprio esgarçamento gera a condição de sua fábrica: nuvens.) Fc: não sei se das cisões os galhos vão conseguir recrescer – mas no mais a gente subestima a força que há, a seiva que a gente não vê, nesses seres [é como aquelas formigas de uns dias atrás tão nítidas no caminho do quintal despedaçando grânulo a grão uma gota de comida ressecada: sua ordem, sua conduta, sua meta, as pernas tão firme-mínimas, sua conversa, sua caminhada: quase juro que havia uma força que nenhum pé as pisaria]. Passa uma mãe com duas meninazinhas carregando sacos, embrulhos, vêm de uma compra ou coleta de percurso a que sobrevivam; cantam uma melodia como se estivessem no Campo, não distingo a letra, mas é muito parecida, em métrica, em ritmo, em estilo, com o marcha-soldado-cabeça-de-papel. A casa verde e o verde da casa do vizinho – no exato momento em que eu olho ele vem e acomoda-se no assento; como eu olha a roseira, a visão sobre o muro, a rua, tudo o que pode ver a vista; revira-se a pergunta como serpente mordendo a cauda: até quando existirá essa cadeira? ou a roseira com rosas, ou a linha da calçada, ou as telhas úteis, ou o homem por trás delas. Sem resposta e aqui para sempre com nenhuma, acabou, através daqui não se terão mais notícias. (Uma senhora passa no meio da rua e o verde claro de sua blusa projeta-se dentro do reflexo da janela meio aberta a um ou dois metros atrás das rosas.) O portão do pintor ficará mesmo sem texto e os habitantes da redondeza quem sabe amanhã ou num longo futuro receberão algum outro recado de um outro alguém nos seus postes seus muros seus troncos contudo receptivos. O céu talvez esteja pronunciando um Ardósia, ou talvez a tempestade esteja se guardando para quando o Carnaval, já já, chegar. Do vitrô sobre a escada: a luz entra e escreve a caligrafia do corrimão sobre o corredor e enche de seus corpúsculos o espaço de metros cúbicos aonde desembocam todos os quartos. Cf, os objetos vivos, a vida da parede em sol (sustenido), um avião afinado em asas e cauda muito escuras mas de corpo luminosíssimo rosnando ao destino do seu pouso. O azul, o sol brasileiro; o sol universal em que a paisagem gira o seu compasso. As plantas do quintal, o hoje com todo o seu mísero e seu gigantesco, o sabiá que abre o bico. Aquela nuvem sem dúvida: passando.
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2 02 00
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cf, jul.2010 .
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