VF 5

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(não bem janela; sacada) ..... Andanças no Centro, de repente a vertical de cento e tantos metros para a paisagem encantadoramente bizarra nos 360º do alto: São Paulo. Do alto daquele prédio do Banespa se esparramando. Mar de prédios é um clichê mas é isso, ou então é de humanos, o oceano de humanos dentro deles, nos elevadores, pelos cantos, nos caminhos, nos viadutos, nos atalhos, nos balcões, sentados, andando, parados, tagarelando, se escondendo, sob as iluminações de artifício, se trombando, de braços abertos, desembaraçados ao sol. O mais engraçado – o mais trágico, dirão... o mais assombroso, pronto – é que não é nem 1/4, nem 1/10, sei lá, da cidade que se avista. Meu pai de cicerone, manauense, muito mais conhecedor da minha própria cidade em que nasci, em que renasço: ali a Av. do Estado, a Sta. Efigênia sua fachada de frente, os recortes do Martinelli, a Prefeitura, o Chá, chafarizes do Anhangabaú, o Pátio, São Bento, olha a Paulista e seu costado de antenas, meu Deus a São João como uma espada seguindo o horizonte. Do espinhaço da Cantareira... nuvem? neblina? a constatação se inclina para concluir: poluição. Silêncio no entanto, ou outro registro da vibração colossal da metrópole... Acima, bem mais de perto, a bandeira do Brasil tantas vezes vista de longe vibrando tranquila como se de um outro tempo, de dentro de um aquário. O que Mário de Andrade diria daqui do alto? (Depois mais andança, na Senador Feijó um pedaço da Sé como se destacada de Kafka, a movimentação ininterrupta, o sol, a natureza da luz, incidindo sobre nós numa daquelas ruas-calçada, pedestres, pedestres, pedestres, motim das músicas, a algazarra, harmonia junto, os prédios, muitas pessoas aqui; estranho estar vivo – o encanto de sentir estando.)
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(da do carro) ..... Sinal vermelho, no automóvel em frente uma mulher no volante aproveita a pausa e ergue a mão: aprecia seu anel do dedo médio, a palma vindo e voltando diante do retrovisor cujo reflexo resplende seu olho, um olho bonito de japonesa, vivo e rasgado. Sinal verde, vira à direita e no embalo passa inconsciente pelo próximo farol – vermelho. Na calçada uma guarda fleumática tira do cinturão um bloco e anota os números e as letras da placa.
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(idem) ..... Muito carro.
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(idem) ..... Pelos lados da República do Líbano, as praças enjauladas. Praças não, não podem ser: as áreas verdes enjauladas.
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(cf) ..... A Lua, pragmática, lambuza tudo de branco.
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26 03 99
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