VF 9

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(fc) ..... Um gato preto, de barba e patas brancas, se banha aconchegado no canto do telhado, ao lado da árvore. Depois abre os olhos verdes, olha o sol ou o céu, enrosca-se e dorme. Aliás sol e céu amenos, abertos depois de uns dias mais ou menos acarpetados de frio e nuvens.
.......... O vizinho reabilitado sentado na cadeira de praxe me observa o observando.
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(cf) ..... Uma lua estarrecedora. Ainda não está no auge – auge da altura – mas redonda, redonda, redonda, como é que pode ser tão bola, como é que pode ser tão solta no céu. Móbile, fixo, só visível na ponta. Um boeing surge rasante cheio de luzes, segue certeiro a uma lunissagem, mas ao se aproximar do branco, decai, descende, dá adeus, mantém o destino missionário de aportar humanos no aeroporto.
.......... Na penumbra do quintal distinguem-se as manchas laranja das bandas do mamão, uma na armação colorida em forma de casinha, a outra sobre a terra do xaxim. Nenhum pássaro à vista, provavelmente já estão bicados (os restos das bandas). Penumbra é o quintal do vizinho, penumbra é o quintal do outro vizinho, penumbra é São Paulo – só o algeroz do astro despejando sem preconceito a luz do sol transformado. Outro boeing aparece, mas é fiel ao mesmo destino.
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(fc) ..... O vizinho não reaparece, a casa está toda trancada, uma luz amarela sob cortina e grades o resguarda no conforto. A cadeira de praxe, vazia, não me vê a observando.
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30 04 99
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