VI 11

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Manhã escura, 6 e pouco, a luz dos postes ainda vale. (Mas, parece, fará dia claro.) No caminho o corredor dos bambus é um túnel; mas na pista há bem mais gente do que eu pensava.
.......... É uma mulher, lá com seus 20 a 30 anos, magra e usa uma camiseta larga, branca, com alguma propaganda atrás em vermelho e preto. Tênis, meias brancas, as pernas de fora parecem nuas de tudo, provavelmente está de calção mas não dá pra ver, o “camisão” encobre. Os cabelos pretos são compridos, agora numa trança enxuta seguindo a coluna até além do meio. Duas fivelas coloridas sobre as têmporas (...) – ela acaba de voltar e não são fivelas coisa nenhuma: apenas um elástico bem na raiz do rabo-de-cavalo. O camisão é mesmo largo, como se fosse do seu pai gordo e alto. Ela para bem na reta à minha frente e ainda no trote da corrida vira-se pra onde veio e observa ou parece esperar alguém. Então entra pela alameda dos bambus, sumindo. No pulso direito tinha um relógio preto e fino.

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Outra mulher. 40/50 anos. Toda de preto, menos tênis e meias, brancos – por baixo da camisa preta se divisa a barra de outra camisa também branca. A calça preta é justa, dessas pegadas, contornando a pele. Tem uma pochete de couro marrom sobre a cintura, abraçando as camisas; sobre a bolsinha pende uma toalha pequena, cor-de-rosa, que balança conforme ela corre em marcha lenta. Através do pescoço um lenço rosa-avermelhado e os cabelos loiros, crespos, vão até abaixo da orelha, balançando como a toalha. Conforme vai, respira ritmada, soltando pela boca o ar em forma de duas bolas rápidas nas bochechas.
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Este aparece entre os bambus, cada vez mais se iluminando, é um homem negro lá com seus 40 e tantos anos, na cabeça um boné azul-marinho com algo em branco escrito, uma jaqueta preta encobre a camisa de listas horizontais pretas (ou azuis) e brancas. Sapato (tênis) acho que também preto e a calça é bege, mas “social”. No braço esquerdo erguido leva pendurada uma mala (parece de pano) estreita e preta, também com qualquer coisa em branco escrita. Às costas carrega uma rede com um batalhão de bolas coloridas de vários tamanhos; está na cara, é o seu vendedor.
.......... Agora, claro, a luz dos postes já era, e a luz do dia clareia mesmo.
.......... (Três num só dia. A religião e suas mudanças.)

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28 07 98
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Um comentário:

bia reinach disse...

Edu,
Gostaria de saber mais desta idéia....dos vestígios.
É engraçado, ou melhor, curioso ler e tentar visualizar...às vezes vejo claro...outras me falta algo, a imagem não se forma e outras são palavras que não chegam a ser imagem e as variações, gradações entre essas possibilidades.
Mas o qu é isso que vejo na tua descrição?
Conte-me mais desta idéia...
Estou adorando ler os teus Vestígios.
bia