VI 15

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* .... Levanto a vista e conforme me aproximo a visão se delineia: um homem sentado no meio-fio, de perfil, os pés no asfalto da rua, a linha da calçada está inclinada à esquerda, passa por baixo dele e se perde adiante. Usa um macacão inteiriço, cinza, cinza-rato, os cabelos grisalhos são curtos cortados a máquina e não é possível ver seu rosto: está enterrado nos braços cruzados sobre os joelhos. É magro, está entregue à posição mas o sentimento que parece viver ali não permite que o termo entregue seja relaxado. É um quadro pronto de Van Gogh ou de Millet. Atrás dele há um outro homem: de frente para a direção em que eu venho, está sentado no chão, as costas no tronco de uma árvore, as pernas dobradas com as plantas dos pés paralelas pisando o chão, cada antebraço sobre cada joelho, as mãos entrelaçadas à frente. É mais jovem que o outro, negro, usa um bigode ralo, o mesmo tipo de macacão, um boné preto, um colar (que é um cordão preto) com uma cruz prateada, no pulso direito um outro cordão preto como pulseira. Seu olhar vai aonde eu venho mas me atravessa à altura da barriga; não pisca e se entrega no que pensa. Como o outro, se abandona ao não-movimento, mas o estado de espírito talvez desiludido diz que algo nele ou ele todo está tenso. À esquerda é o muro compacto coberto pela trepadeira; à direita, na rua, um caminhão aparentemente vazio com uma escada lateral pendurada – pelo jeito, de onde vieram; provavelmente funcionários da Luz ou da Água. O seu caminhão quebrou ou indiscutivelmente tem que esperar por algo... mas algum imprevisto parece ter ocorrido. A suspensão das suas tristezas tem uma densidade que se contrapõe ao dia bonito de sol, que, no entanto, no momento mesmo em que se passa pelos dois, carrega um cheiro revelador de chuva, combinando com a sensação de prenúncio que evoca o estado parado dos homens.
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12 08 98
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* Vestígio de exceção: não do camarote no Ibirapuera mas da calçada que rodeia a Hípica.

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