VI 16

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.Sabadão mas nem tão cheio. Lá atrás, no palco, testam o som para o show de amanhã do Caetano, às vezes sai um grave alto como na boca do Inferno, às vezes, como agora, é só o som do rádio (infernal) às alturas. Antes de me pôr ao vestígio, me meto a ler uma matéria de jornal que trouxe mas já no segundo parágrafo uma moça me interrompe pedindo a atenção para uma pesquisa de crediário. Aceito, o burro, e fui respondendo às perguntas automáticas entre um mau humor mastigado e o tempo que não passa [e a matéria, ainda pendurada na mão, é sobre o filósofo Mo Tzu e sua crença no amor universal]. Ela negra – 30 anos? –, 1,70, 75, calça jeans e camisa comprida (nesse dia de sol aberto), simpática mas remete a um autômato de filme B futurista [e há pouco vi: há vários deles, com suas pastas e papéis, andando em pequeno bando ou à solta, lentos e possuídos como animais caçando], ela também tem sua pasta, três papéis coloridos (exemplos de propaganda) e por trás da voz treinada e cerebralmente lavada como uma fera de circo, existe um olhar entristecido que não me fita muito; nos pés dois sapatos-tamancos de couro em dedos sofridos que de vez em quando eu encaro e me fitam muito quando abaixo a cabeça se impacientando. (Durante a entrevista bucólica e financeira ouve-se um estrondo e um grito, bem na nossa frente na pista uma menina caiu da bicicleta não sei como, quando vemos já está no asfalto; um arranhão ou outro, no máximo um roxo, não foi nada, os amigos a ajudam.) Afinal finalizando, a pesquisadora dá tchau, pede desculpas pela interrupção e me deseja sorte; retribuo, o burro, tentando voltar à matéria é claro que não consigo e me entrego ao vestígio.
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Do corredor de bambu surge um casal e três filhas (supõe-se), não sei se trigêmeas mas pode ser, lá com seus 7 anos, três vestidos idênticos, cor-de-rosa enxadrezados em branco, bonitos e claros no verdor iluminado do parque; os cabelos são escuros, frisados, soltos até abaixo do ombro; seis chinelos de couro. A mãe usa bolsa e um macacão leve (acho que azul-claro) com uma camiseta rosa (mais escuro que o dos vestidos); o cabelo como o das filhas só que preso num rabo-de-cavalo. O pai de sapato calça e cinto, camisa de botão, mangas curtas, as cores neutras, pouco chamativo. Atravessam a pista e sobem a calçada, entram na grama e param a uns cinco metros daqui do banco; o casal olha em várias direções, procurando o rumo certo, daí decidem e passam por mim, prosseguindo praticamente na mesma reta em que vinham, mantendo a linha da Praça da Paz.
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Um casal, jovem, ela de camisa elegante, branca de mangas cavadas, de saia e sapatos, ele de calça, cinto e sapatos, a camisa é de mangas curtas, botões e gola. Vêm pela grama de mãos dadas, muito calmos, se aproximam de mim lentamente sempre olhando pra cima. Estão atentos a um canto de passarinho na copa da árvore. Ele mais encantado que ela, ela o acaricia com a mão direita, passando suave no seu antebraço, lenta, do cotovelo até o relógio. De repente ele fala “é ali, tá pra lá”, e seguem às minhas costas, pelo jeito enxergando a origem do canto.
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Um homem – 30 anos? –, calça leve, cinza, sapatos de sola baixa bem gastos, a borda da camisa por baixo do jaquetão de couro preto com alguma estampa nas costas; cabelo curto mas nem tanto e cavanhaque pretos. Anda só na pista, da esquerda à direita, mas seu caminho é troncho, todo quebrado, em segmentos e pequenas curvas às vezes parando. Principalmente quando para, parece olhar outras pessoas paradas ou alguém ao longe e fala sozinho. Está zangado, ou pelo menos muito encanado, amarrado numa questão insolúvel. Quando chega mais perto vejo que tem folhas na cabeça – pequenas e secas –; segue no caminho da direita e some de vista, sempre sem sair da pista apesar das quebras.
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Uma jovem, 20 e tantos anos..., chispa de bicicleta, esquerda-direita, camiseta branca sem manga, calção marrom (de jeans?) apegado, e cabelos crespos castanhos presos num rabo-de-cavalo com fivelas. Nos pés dois tamancos simples, dois pedaços de pau com tira de couro entre cada sola e o pedal; fico pensando imediatamente como é que eles não caem.
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(Só agora vejo, na outra ponta do banco deixaram um palito de picolé usado. Restos de chocolate.) (Ao escrever tudo esse hoje, mil vezes olhei-não-olhei o movimento, é impressionante a variedade de tipos, alto baixo fino largo, os gestos, os jeitos, os ritmos... cortes de cabelo, roupas, peles, os coloridos... tem até semelhanças mas absolutamente nada se repete.) (Uma luz do sol espetacular.) (Volto ao Mo.)
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15 08 98
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