VI 17

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(Um casal no meu banco, passo andando, é um vestígio dos rápidos.) Na esquina dos bambus, sobre a calçada, dois soldados e duas mulheres, civis. Formam um quadrado, de quina com a esquina, cruzados: cada mulher de frente para a outra, cada soldado de frente para o outro. Eles são brancos, têm boinas, casacos, botas, apesar da boca escancarada da tarde (apesar de um manto translúcido de nuvem contínua, como uma gaze), os tecidos de verde-musgo, verde-claro e preto. Elas de cabelo e pele morenos, saia, sapatos, blusa, cabelos soltos, domingo de passeio chique. O soldado oposto à esquina beija as duas faces da mulher à sua direita; ela conversa, um dedo encostado na boca, sorri. A outra dupla também conversa; é uma só conversa, dos quatro. (Passando pelos bambus-túnel, muitos sons; um homem fala espanhol com uma mulher, alguém exclama alto ao chutar a bola, pais e filhos desviam as bicicletas, um casal vem, ela de fone nos ouvidos, ele não, cães respirando nas coleiras. Adiante três homens, um senhor, dois mais jovens, parados nas bicicletas, voltados para dentro de um pontudo triângulo isósceles. De olhos puxados, falam japonês (ou coreano ou tailandês... não parecem da China), o jovem da ponta distante falando alto – tagut'ô-taguruó! – sem se importar com a atenção que chama ou deixa de chamar. Lá fora, já na rua, à espera do farol azul, lá estão os três, tagarelando, ao meu lado, como se quisessem pôr à prova, nós somos japoneses.)
.......... [Na ida, na avenida, um mendigo andando. Muito sujo, barba e bigode e cabelos grisalhos. Um par de sapatos esculhambado, uma calça gasta, dois sacos brancos na mão esquerda. Sobre o tronco muitos panos, andrajo sobre andrajo, sobre todos uma jaqueta, bem aberta, senão não caberia. Monstro futurista, ente fabuloso, mamute bípede. O olhar, toda a cara, à procura para baixo, circunsisudo. / Na volta, na mesma avenida, mas em outra altura, na outra pista, um outro mendigo. Roupas normais, camiseta, calça... mas gastas, imundas. Parado numa beirada, apoiado numa mureta, a ponta do pé direito apoiado à esquerda do esquerdo, canela cruzada sobre canela. Os cabelos finos, calvo em cima, na fronte esquerda uma mancha nítida, um galo ou talvez só sujeira. Olha para baixo, medita muito, afundando uma linha pensativa entre os corredores e sons dos carros.] [Já numa avenida mais próxima de casa, mais distante ainda do Ibirapuera, um senhor branco de pele e cabelos na ilha divisória do centro. Anda, está de terno e gravata preta, um terno cinza, mais ou menos fino, amassado, na cara enrugada e centrípeta uns óculos de armação grossa e negra como um branco do Mississipi, vem-me sem que eu perceba o pensamento, está vestido para a morte.]

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23 08 98
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