VI 19

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Nem de longe revejo o camarote à espera: passo ao largo com minha mãe, vamos direto à paz da praça cheia de gente, é domingo de show, especial este, em comemoração à independência datada no dia seguinte. Dia chapado, céu cinza e branco, mas sobre o palco um arco-íris inflado com notas musicais. Impossível relatar só um, dois ou três vestígios específicos; ante o caldeirão de nações musicais que viriam no palco, lá embaixo o costumeiro caldeirão de nações onde estávamos – colorido de roupas de peles cabelos cadeiras ciclistas cachorros vendedores (algodões-doces-refrigerantes-água) distribuição de salgadinhos fumaças de cachimbo cigarro walkmans temporariamente desligados. Orquestra e coral, maestros Julio Medaglia e Abel Rocha, Fortuna e canções judaicas, dançarinas nipo-coreanas em dança do leque e tambores, gospels do Harlen's Ten, Edson Cordeiro e um fado, até uma minimissa simpática do padre católico que esqueci o nome, apresentações do Fagundes. Lá no início uma Glória sublime de Vivaldi sobrevoando-nos; no batuque coreano de repente entrou um baticum brasileiro (surdo, caixa, pandeiro, tamborim, cuíca...) daí honestamente chega deu dó, talvez maldosamente – a microfonia do samba parecia mais alta – mas seja por microfone seja sem, deu vontade de que as coreanas tivessem uns braços de coreonões, pra se igualarem à levada do samba que quase submergia a levada delas; quanto ao Harlen's Ten basta citar a exclamação da moça próxima de nós assim que os anunciaram: ah, esse é que é bacana, né? Bota bacana. No fim, após a orquestra e o coro com o hino paulistano do Billy Blanco e a volta de quase todos na sempre giganta Aquarela, soltaram um monte de balões das cores do arco-íris falso e, conforme iam, o que na saída parecia muito foi se tornando pequenino no céu agora imenso, uma revoada de cores imigrando ou o pedaço ao vivo do pontilhismo de um quadro.
.......... Contrariando a impossibilidade específica, na saída uma mulher tão relatável: pouco depois do palco, a multidão se ramificando entre as árvores, ela sentada no chão, de frente pro fluxo, as costas a um tronco, muito seríssima (não mal humorada: serena), como sintonizada com algum som do Espaço, branca clara, grandes óculos escuros, lenço à moda antiga cobrindo quase todo o cabelo, calça cor-de-rosa e justa dessas curtas até um pouco acima do tornozelo, pernas flectidas e paralelas como os pés com as plantas no chão, as mãos uma sobre a outra apoiadas e soltas sobre o peito, 50 anos? 60? Imóvel, repousada no seu momento. Nem respiração aparente, na verdade até poderia estar morta.

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6 09 98
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