VI 22

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Uma luz translúcida de cima – escoada pela atmosfera depois pela copa das árvores (e também pelos meus óculos escuros). Uma moça passa de cabelos soltos, “bustiê” azul-escuro, calça preta, tênis brancos e uma blusa também branca na cintura; olha as horas e prossegue sua caminhada quase acelerada. Ao acabar de reler as frases passadas, ouço um rangido e bem à minha frente passa uma senhora de moletom verde e uma faixa-tiara rosa; puxa um grande galho de árvore que raspa suas folhas e as ramificações pela pista; tem os passos miúdos e ritmados balançando à esquerda e direita, usa uns óculos fundos; parece uma cena de Fellini; arrasta o galho atrás de si e se alguém dissesse que não tem consciência disso não seria tão grande a surpresa; limpa a pista ou faz algum exercício que não capto ou é louca. Olho pra vê-la já à distância indo embora e lá ao seu lado na direção contrária vinha um filho que leva um tombo tropeçando de frente; a mãe o acode e levanta. (Essa luz está mesmo translúcida – claro que fica mesmo bonito pelo tom dessas minhas lentes escuras, mas sem lente nem nada é um dia e tanto, um quase meio-dia não rigoroso, parece manhã.) À esquerda, a oeste, lá no parquinho, a luz incide de chapa na chapa de um escorregador – será só nessa exata linha que se vê ele assim “espelhindo”? –, parece uma placa de neve coruscante, ou o monolito de 2001, só que branco (muito branco), ou um prisma incandescente – depositado no parque, não se sabe por quem, não se sabe pra quê. Cinco jovens vêm lá de “nordeste” em pernas de pau; ajudam-se a descer a calçada e subir a outra, atravessando o asfalto da pista como se fosse um rio perigoso; parecem seres alienígenas numa invasão pacífica (em silêncio, como sem querer chamar atenção, como se as explorações fossem um costume diário). O parque hoje parece cheio de coisas sem limites – penso no quanto eu perdi ao escrever de cabeça baixa. (O tempo parece firmar, depois de tantos dias – semanas, meses – de cinza e friagem (e talvez nesse se-firmar o sol castigue, no peito rigoroso do verão).) Enfim, fixo o limite, fim. (Ah! atrás de mim, no outro banco (com mesa) a uns vinte metros, uma mulher faz ioga ou medita à sombra (está de pernas cruzadas sentada sobre a mesa); imóvel, os braços relaxados, as palmas da mão pra cima. Entre a minha visão e ela uma mosca dessas verdes mantém-se suspensa, muito menos imóvel do que a mulher que medita.) .... já meio-dia e 28

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21 10 98
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* Os jovens passam de volta, ainda silenciosos e calmos, mas com os pés no chão, as pernas de pau sob os braços, muito humanos.
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