VI 25

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A primavera ainda está amordaçada em algum lugar. O céu branco-chumbo, o frio duro. (não sei como a minha mão ainda tem a cara de pau de escrever, e cada nádega de se sentar) Apesar de tudo a luz ilumina bem as coisas (parecem estalando como de dentro daquele espelho retrovisor dos carros) e os verdes estão tão redivivos pela chuvada de ontem.
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Dois homens altos, em alto e bom som, se cumprimentam simpaticamente ao se cruzarem – ah que prazer em te encontrar! – felicidades! – mas ao mesmo tempo por trás de tanta consideração não querem muito papo, mal param na direção em que iam e seguem aos opostos. Lá do outro lado uma mulher também cumprimenta um trio que a atravessa, e no centro, logo aqui quase à boca do túnel, outra mulher cumprimenta outro homem quando se cruzam – também simpaticamente, esses falam mais alguma coisa, a respeito de não sei quê que aconteceu ou ainda vai acontecer, mas também não param, ela some entre os bambus, ele segue com os que o acompanham.
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Uma revoada escandalosa de uns dez a quinze passarinhos nervosos vai e volta sobre as copas, quase as raspando, mas mais no alto.
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Um dos altos passa novamente, no ritmo rápido da caminhada as mãos enormes, espalmadas, sobem e descem quando flexiona os braços, a cabeça é pequena e grisalha, uma barriga valente, as pernas finas saídas de um short curto; bem disposto e cômico.
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Um vira-lata vem acompanhando uma moça, parecem conhecidos até que os passos de um e outra se distam, ele olha pra baixo, continua caminhando mas mais lento, ela vai embora. Um casal surge do bambu-caminho e a mulher logo o olha e ele a ela; esboçam uma aproximação, ele dá dois passos, ela inclina o caminho para ele, ele para, ela se atém à órbita do marido e os dois se afastam, sem que ela e ele (mulher e cachorro) desistam do olhar por um momento. Com seu rabo comprido e estabanado ele se senta no meio do caminho e por um tempo fica olhando. Vai até o lixo, cheira, vai e volta, agora está andando lá para a direção de onde veio com a sua “primeira dona”.
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Muitas outras pessoas passam, naturalmente. Quando as palavras iam se sentindo um tanto embromando com aqueles pássaros escandalosos, reapareceu o homem alto e chegou o vira-lata; mas agora acabou, fim. (Esse verde esparramado na grama, entre a terra entre as árvores e nos troncos, está de fato “um luxo”... um fenômeno.)
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* O cachorro, como já se era de esperar, desapareceu.
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* Na Praça da Paz uns quatro jacarandás reunidos pingaram de azul-lilás o verde e marrom-escuro do chão úmido.
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4 11 98
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