VI 26

.
.
.
Aqui não tem galos. (Um galo sozinho não tece uma manhã – João Cabral de Melo Neto.) Nublado, mas o céu teima em ser azul nesse comecinhozinho de manhã. Um azul opaco, meio tímido, tentando se encharcar nas nuvens. Céu azulado, inteiriço e baixo. (Lá fora não se vê o topo de alguns prédios. (e como já se disse, aqui não é nenhuma Nova York, nenhuma Manhattan pra ter prédios tão altos – ou seja o céu está baixo mesmo))
.......... As mesmas garis do passado. – serão mesmo as mesmas? Enquanto ouço suas vozes conversando – você acredita tudo nas conversa dele... / ele falou?, eu que falei, ah sim –, vêm varrendo a vala da margem daqui, seguem embora – a leste. O túnel de bambus vai lançando cada vez mais pessoas como bolhas de sabão por um sopro, só que não tantas.

.
*
.
O azul desistiu. Branco – branco branco branco – sujo; o branco-chumbo – uma tela branca muito pintada de branco. (muito em quantidade, em excesso, de tinta, de peso)
.
*
.
Cada vez mais cheio; o parque é um planeta onde os seres vão acordando aos poucos. Um homem surge do túnel, para no meio da pista, ereto, olha a oeste, a direção do caminho a seguir. Respira, olha o relógio, o relógio o caminho o relógio, aperta botões e dispara – um andar em marcha, os braços alternando, tudo sincronizado. A camisa colorida de faixas horizontais e finas vai diminuindo quase imóvel.
.
*
.
Passa um homem lá dos seus 50 anos, caminha acelerado de moletom colorido e tênis e tem um tronco anormalmente entroncado: a cabeça inclinada à esquerda com o pescoço escondido, parece ter levado bem no cocuruto um murro de um gigante (e o médico do seu reino mágico lhe exigiu andanças no Ibirapuera para recuperá-lo... – maldade).
.
*
.
Quando levanto a vista um senhor está parado de perfil bem ao lado do ipê, olha com neutralidade a sua frente e os dedos da mão esquerda lhe envolvem a garganta; na mão direita olha o relógio de pulso, a abaixa de volta e continua assim imóvel e se sentindo pulsando. (Logo quando o olhei ele me devolveu o olhar por um segundo e, imaginando um pouco, era como se dissesse socorro, estão me enforcando!, sendo sua própria mão a do assassino – até que o atentado pareceu ser só o normal autoauscultamento.)
.......... (Agora, depois de uns 15 minutos, ele reaparece e repete tudo no exato mesmo lugar. Dá uma sensação de volta no tempo, enquanto escrevo isso ele desce a calçada e se perde entre os bambus.)

.
*
.
Uma mulher de grandes quadris (ou devo dizer: quadris grandes) passa com seus cabelos muito negros e o andar é pesado (mais do que o céu branco (que aliás agora está branco-se-iluminando, como se a luz o levitasse)) e os globos oculares parecem ter o mesmo peso, olhando pra baixo, só no metro adiante. Aliás, sendo bem verdadeiro, não é o andar que é pesado: é seu corpo nele. Anda até com vigor e leve, os passos macios ao mesmo tempo firmes no asfalto – mas os ombros cedendo, a dezenas de quilos que sabe-se lá de onde vêm, a coluna inclinada como se o alto se interessasse de um jeito pelo caminho e a bacia de outro (como se o alto fosse o coelho e a tartaruga o baixo); e como se tudo, coelho tartaruga ombros cabelos, apesar da desenvoltura dos passos, jogado dentro de um tanque ou celeiro – um monte de feno ambulante que é o corpo. Impressão maior pelo contraste com um casal que [alguém passa lá adiante com um perfume que vem bater aqui; levanto a vista pra caçar o exagerado mas daqui, sentado, impossível saber; pela distância, talvez uma daquelas duas que vão papeando] – impressão maior pelo contraste com um casal que logo atrás, a uns 4 metros, vão andando esguios e leves de tudo, muito altos, magros, e com uma tranquilidade nos olhos, como se olhando um infinito estabilizado, bem em frente.
.
*
.
Uma mulher leva e se deixa levar pela coleira de um poodle minúsculo e branco. Ela vai satisfeita pela graça que ele produz, as pessoas passando olham e sorriem e ele tem o olhar agitado, se quebrando rápido em duzentas direções. Mas agitado mesmo são as quatro pernas miúdas, quatro manchas brancas que se misturam – dá a impressão de que se andar assim por mais meia hora, morre de cansaço.
.
*
.
Definitivamente o sol vem abrindo alas, varando nuvens, branquidão ou chumbo. (menos por enquanto esse banco gelado com seu termostato ao contrário)
.
*
.
O galo que não havia continua não cantando. (ele precisará sempre de outros galos)
.
5 11 98
.
.

Nenhum comentário: