VI 28

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Andando no parque. Passa – olha que coisa mais linda mais cheia de graça – uma menina mais-linda-do-mundo, lá com seus 6-7 anos, está descalça, leva os tênis na mão direita, na outra um picolé; a pele lisa é muito morena, um mulato dourado, os cabelos todos frisados, compridos até o meio das costas, castanhos, uma testa alta entre eles e os olhos; passa, põe os tênis no chão ao lado e se senta no balanço, então presta atenção ao sorvete enquanto se embala; tem com ela toda a serenidade e satisfação do planeta, no simples estado de ser que executa. A uns 200 m adiante, entre quatro grandes troncos, uma mulher faz uma espécie de exercício-dança-taichichuã – a camisa vermelho vivo destaca o balanço dos seus movimentos, pra lá e pra cá. A Praça da Paz tem uma porção de entulhos de folhas reunidas, parece que um esquadrão veio e desativou não sei quantas minas; mais adiante, perto da ponte de ferro, um esquadrão de quase dez garis (os desativadores das minas) juntam os punhados das últimas folhas. Na ponte uma mulher tira a foto de outra, depois riem do ato, descendo a escada. À beira do lago uma mãe com o filho-bebê no carrinho alimenta com alguma coisa vários cisnes negros de bico vermelho e um bando de pombos esfomeados; dois dos cisnes, por mais de dois segundos, formam lado a lado o perfil exato de um 22, como naqueles cadernos ilustrados de alfabetização. Na “Alameda dos Anos Dourados” – que só agora descubro se chamar assim – um sujeito de gravata e camisa de mangas curtas joga pão ou grãos de qualquer coisa a uma família de patos; eles o rodeiam e o encaram, se forem assassinos está em sérios apuros. É isso; no mais, um céu nublado que a qualquer momento arromba as nuvens para um sol mais-nítido-impossível, como têm sido, afinal, esses dias inclassificáveis de São Paulo.

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13 11 98
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