VI 29

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A sombra das ramagens desenha mapas na grama. O Sol não só ilumina: ri. Da Praça da Paz trago uma pena branca abandonada, quebrada em dois na ponta e arrepiada se desfiando; grande demais pra ser de pomba, esquisita demais pra ser galinha. No caminho da praça até aqui, atravessando o maior daqueles dois arcos brancos, vejo um menino se aproximando e grita ao vê-los: o arco-íris! – e corre por baixo deles. Vêm um outro menino mais jovem e uma menina o acompanhando; ela, realista, enxerga mais longe e grita: e olha o parquinho! – e sai correndo até lá; os dois, obviamente, a seguem. Aqui os corpos das pessoas passam de repente estranhos como matérias – as pernas longas, os braços-pêndulos, os ossos do lado de dentro os cabelos do lado de fora; a trilha sonora do suave trrrrr das bicicletas. Um senhor passa, abarrotado, anda rápido se inclinando à frente, os pés aparentemente nas pontas, como se estivesse assado e com pressa de se tratar lá em algum lugar onde a pista finda; na testa calva tem uma pinta central, como se fosse um assassinado a tiro na cabeça, de repente ressuscitado. Um outro trrr musicaliza – olho pra trás e é um cortador de grama, com uma daquelas máquinas de motor nas costas ligado à vassoura futurista. Três homens sem camisa, muito fortes, passam cadenciados numa linha de cooper; a moça que vinha andando, no mesmo rumo deles, abraçada a uma pasta e de bolsa, calmamente, fica os olhando encantada, ou assustada, ou apenas absorta na visão. Antes, no começo, enquanto andava antes de tudo isso, um bem-te-vi com seu peito amarelo e máscara de bandido pousou de ponta em ponta nos aparadores de rede; mergulhava a cabeça nos buracos e de dentro o bico trazia qualquer coisa, talvez minhoca, de qualquer forma guloseimas, e mastigava com gosto. Um trator escangalhado rasga o caminho dos bambus com seu barulho e vai sumindo na pista aonde se foi o homem ressuscitado, levando montados nele três funcionários de verde para alguma empreitada. A gargalhada do Sol, em silêncio, continua.
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24 11 98
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