VI 30

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O céu só uns fiapos de nuvens, o azul da manhã generoso oferecendo mais um dia. E o sol fielmente inundando os corpos (os corpos de todos, coisas e homens). O ar é fresco, leve, como se quisesse preservar tudo; os sentidos inocentes insistem em dizer que está completamente puro. Os cisnes brancos são maiores do que se pintam à distância; a gente passa por eles quase roçando e eles nem olham – parecem despertar, impassíveis, em paz. Um preto, depois outro, do mesmo modo, está com o pescoço mergulhado, parece morto ou cometendo um autoafogamento – mas a situação luminosa diz que caça alguma coisa, se alguma caça ainda há nessa água. Patos cinza, surpreendentemente bonitos e dignos como esfinges, comunitariamente estão parados, admirando a paisagem (mas parecem mais admirar a si mesmos a admirando) – pouco a pouco o congestionamento humano vai os empurrando para o lago. Do rádio um concerto para violino (número 3, Mozart, sol maior índice Köchel 216) musicalizou tudo. Na haste do meu óculos pousa alguma coisa, vou ver e é um inseto marrom e preto de espantosa beleza, como é que pode tamanha delicadeza. (Devo parecer exageradamente embevecido, bêbado de embasbacado; mas não é isso, é só o que se apresenta, apenas relato.) Passeei, corri, andei, são 7 e tanto mas cheguei cedo para pôr em prática meu plano à socapa: trouxe comigo dois escritos (não meus), devidamente plastificados (para aturarem minimamente o tempo e sua fúria), devidamente em papel esverdeado (para não poluírem tanto), devidamente munidos de tachinhas também verdes (pode-se constar o grau profissional da estroinice) – e os preguei em dois troncos. Um, o caule da primeira árvore à esquerda dos bambus (direita de quem de lá chega), o outro o da primeira à direita (esquerda de quem vem). A ideia é antiga, “antiga” já de umas semanas [o projeto seria, depois de invadi-lo no meio da noite vestido de preto como camuflagem, espalhar trechos e frases por dezenas de troncos de todo o parque. Quem sabe algum dia, com mais ímpeto bandoleiro, ainda o realizo; por agora ficam só esses dois textos crucificados]. A princípio ia pôr só um, mas acabei, maniqueísta, optando por um “pessimista” (que dependendo de quem lê pode ser magnânimo, instigante) e um “otimista” (que dependendo de quem lê pode ser simples tolice). São eles: ELEGIA 1938 – o supostamente negativo – do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual. // Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. / À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze / ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas. // Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras. // Caminhas entre mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. / A literatura estragou tuas melhores horas de amor. / Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. // Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan. O outro, o supostamente positivo, é do Guimarães Rosa, de LUAS-DE-MEL, e diz apenas: No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. Ambos também devidamente nomeados. E agora vou ver se vejo alguém reparando neles, até quem sabe parando e lendo. Mas pelo que pude ver pelas frestas de quando escrevo, ninguém dá a mínima bola, e quanto mais gente chega parece que menos olha, ou veem e fingem não ver, ou é o completo desinteresse, ou têm muito mais o que fazer nos seus caminhos da pista – em que os papelotes são no máximo manchas em dois dos mil troncos às margens. Paciência; de qualquer forma me divirto como um doido, e certamente a muitos seria um, se soubessem. Espero. (...) Nada. (...) Mais um pouco. (...) Nada. Até esqueci o velho modo de ver as pessoas; elas são só um bolo que passa, ignorando Drummond, ignorando Guimarães Rosa. Vêm na pista, devagar, dois policiais de moto (atenção! veem os papéis, arrancam dos troncos, apontam seus dedos, me acusam, me levam preso sem discussão... – pelo menos seria acontecer alguma coisa). (...) Nada. Lá adiante – foi ontem que pensei nisso – há aquelas duas pilhas de grandes pranchas, provavelmente dispensadas de alguma não-construção; estão ali há anos; imaginei pôr um papel em cada: POR QUE QUE NÃO TIRAM ISSO DAQUI? Talvez ainda faça mais essa panfletagem excêntrica. Essa pode ser sem plastificação sem nada, só no papel em branco mesmo, pregado a fita crepe, a chuva que venha e o desfaça, o vento o sol a passagem das horas – o que não fazem com as pranchas. (...) Nada. (...) Acho que chega, não vou ficar aqui sempre, até que um santo milagre repercuta. Como também diz Guimarães Rosa (só que não com essas pobres mas lá com as palavras dele, é claro) “o milagre existe sempre”, então também é miraculosa esta não-visão dos transeuntes. Vou-me embora e deixo aí, alguém haverá de vê-los, nem que seja o gari ou o gari-vento para arrancá-los, nem que seja daqui a anos, quando não houver mais pranchas nem túnel embambuzado e estiverem decepando os troncos. Talvez, kafkianamente, a polícia leve preso um outro sujeito, inocente, sentado aqui nesse banco sem nada saber.

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25 11 98
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