VI 31

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Pra lá de 144 horas e ainda estão aqui! O tempo, a chuva, os homens ainda aturam a poesia – ou então é tanta indiferença. Surpreendentemente o Guimarães Rosa está sem tachas mas ainda sustentado por uma fenda na casca da árvore. Ou alguém o colocou lá ou inacreditavelmente ele se desgarrou e o vento o encaixou no sutil suporte. O Drummond está quase intacto; apenas a tachinha de baixo à direita sumiu. E o que é melhor: uma moça acaba de vir (camisa sem mangas, calção, tênis – tudo preto –, óculos escuros, rabo-de-cavalo e walkman (um walkwoman no caso)), se apoiou no “sul” do tronco – o Drummond está a “oeste” – alongando as pernas na quina da calçada, contornou a “leste” e foi prosseguir o esticamento se apoiando ao “norte”; eu só na suspensão espantada de que nunca visse; enfim se apoiou a “oeste” só que de cabeça baixa, até que se deparou com ele ao levantar a vista [será que já era alvo visado, uma estratégia prevista, tamanho o não-espanto?]; leu, meio reticente, meio absorta – acho que chegou a despender um olhar pra cá através do escuro das duas lentes redondas, farejando exatamente algum espião de butuca –, afinal parece ter lido até o fim o poema (sempre se alongando) e lhe deu as costas num 180º imediato e tomou seu rumo, andando e esticando os braços pela pista ensolarada. Nenhuma reação aparente; o Drummond também impassível apenas resplendendo o texto. (Não trouxe tachas, não antevi tal situação, senão reformava os “cartazes”, quem sabe amanhã, ao que tudo indica qualquer arroubo da natureza fará o Guimarães avoar.)

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Um homem passa segurando na mão esquerda a camisa enrolada e a uns 5 metros de distância repara na tira-guimarães-rosa inclinada no tronco, mas nada: não confia no aspecto da coisa, ou está com pressa, ou a curiosidade foi engolida por um medo que sabe-se lá de que tipo seja.
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Um casal de moscas verdes me ronda, quase imóveis em suas asas frenéticas, talvez agentes alienígenas ou sondas eletromagnéticas se perguntando o que faz ou o que quer esse outro ser com o ar de espião.
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Duas mulheres jovens vêm de lá e a da esquerda parece ver a tira-rosa e comenta qualquer coisa com a outra, sorrindo; ao se virar o seu olhar vê o meu a vendo e não diminuem o passo nem vão até lá ver do que se trata. Quase em seguida um senhor esbelto-esguio de cabelos brancos vem lá do lado oposto e parece ter visto o Drummond e em seguida vira a vista pra mim, como se fosse a coisa mais lógica do mundo; também não vai lá, se é que viu mesmo, também não se expõe ao espião, se é que o desmascarou. Penso nos quantos leitores que perco ao não estar aqui, e nos quantos em potencial que impeço, estando. Precisava era de duas naves-moscas a meu serviço, como os alienígenas.
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Sol, sol, sol, aliás as minhas costas estão sofrendo, no céu cada vez mais azul. Dia bonito. Pessoas passam, bicicletas, biriri, bororó, coisa e tal. Duas senhoras levemente vêm do leste da pista, conversam quase perceptivelmente daqui, ambas com chapéu de palha, um de grandes abas o outro do tipo boné, e de repente uma sensação incide, não há mais diferença nítida, tudo – tudo – é um corpo só, essa luz do sol os verdes a estrutura dos corpos humanos os insetos os cachorros todos os materiais sintéticos, uma grande escultura, comunitária superfície.
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Bem que podia colher o Guimarães Rosa e trazê-lo de volta amanhã ou depois, em novas tachas. Mas não: o tempo, o vento, a chuva, os homens decidem o seu destino. Ao chão jogado, alguém o rapta, esgoto ou lixo, o calor o amassa, ou desbota. Idem Carlos.
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Uma das moscas fica a 10/15 centímetros da minha cara, me olha nos olhos, a encaro de volta, só pode estar me analisando – os dados computados lá no Espaço... o álien rindo.
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Sol do quase meio-dia. A sombra da palmeira é uma grande rosácea a seus pés, a seu pé, ou grande tarântula espocada, feita em paz, da matéria das sombras.
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Aos cartazes, mais nada.
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1 12 98
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