VI 32

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À distância adeus Guimarães Rosa, sumiu do mundo – imagina o sentido disso literalmente verdadeiro... vixe –, mas me aproximando o encontro no chão, de cara pra terra, desenganado; não resisto, influencio o destino, cato; se amanhã vou trazê-lo e pregá-lo de volta já é outra história. Procuro pelas tachas... no tronco, no chão ao redor, nada. O Drummond continua firme, apenas manco da tacha direita. [Quererá o parque apenas o “pessimismo”? Nada da mesmice otimista?]

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Recuo o acampamento aqui para a mesa, aquela da antiga mulher meditando. Por estratégia, ainda mais agora só com o Drummond à espreita (curiosamente daqui a visão de lá é perfeita enquanto a da ex-árvore do Rosa se encobre por trás de uma outra), mas principalmente por ter trazido livros e outros escritos a serem feitos, daí espicho o olho de vez em quando à “velha paisagem amiga”. Aqui é mesmo mais à parte, ali no banco de fato eu era o cara-de-pau de um olheiro – aqui sou só um olheiro. (Agora quem quiser Guimarães Rosa que venha aqui à mesa, por ora o deixo escarrapachado na prancha.)
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Um sabiá dá três saltitos à esquerda e para – imóvel, imóvel, imóvel – olhando muito altivo não sei o quê, perscrutando o ar, os sons... o ar e os sonidos do Tempo.
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Dessa nova lonjura as pessoas passam silenciosas, não importa se correm, não importa se falam, principalmente os passos, macios e mudos, mas eis que surge uma mulher de rosa (rosa-choque no boné e na camiseta colada) e tagarela a altos brados à sua colega provavelmente surda, ou é ela que é surda sem noção de que brada, ou então não fala à outra, se arremessa ao parque, à cidade, ao mundo, ao desespero frio do Universo, desabrida, por dentro descabelada. (Sai o Rosa entra a rosa.)
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Ninguém para na árvore drummondiana. Fala, amendoeira!
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Amigas passam de bicicleta e uma delas: põe tudo pra baixo... tá tudo pra baixo? põe tudo pra baixo... Claro que se refere à marcha da bicicleta com a qual a outra se encrenca – mas bem que combina com a teoria do parque na sua inclinação pessimista.
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Um senhor, muito branco e de chapéu tipo boné e óculos escuros, passa acelerado com os pulsos fechados como se com pequenos pesos, como aquela mulher do outro dia, só que ele muito rápido, como se despachasse bananas eletricamente a quem ou qualquer coisa que pela frente passe. Adiante um pai na bicicleta leva o filho no volante, o moleque coberto por uma toalha; é a cena inteira do E.T., o menino o levando na fuga. Enquanto escrevia, duas meninas se aproximaram pedindo um trocado; quando pegava as moedinhas samaritanas uma delas interrompe a pausa ao ver os livros e as minhas folhas garranchadas e pergunta: você escreve livros? – recupero de pronto a cara de pau e respondo sorrindo: escrevo... Elas partem com as miseráveis moedas depois de outra pausa e um olhar à papelada, entre encanto e incógnita. Quase lá nos bambus a curiosa delas se vira e me olha, e, talvez pra seu espanto, me encontra a olhando.
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O sabiá (um outro) saltita de novo, perscruta, todo garboso, etc., devem fazer isso a toda hora, a todo minuto, ...mas as palavras vão e se metem a querer fazer do momento único, infalível, raro.
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Fui tomar um sorvete e quando chego um sujeito lendo o Drummond! – brincadeira, queria que fosse verdade, é mentira.
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Mas isso é verdade: a mesma mulher – única leitora declarada, até agora presenciada – reaparece (não de preto – de azul e laranja – mas no mesmo “talhe”: boné, camisa sem manga, calção, tênis, walkwoman, óculos escuro), faz os mesmos exercícios do mesmo modo no mesmo tronco [daí talvez a razão daquele não-espanto] e ao sair dessa vez dá só uma olhadinha rápida ao texto, como se refrescando um verso ou dissipando uma dúvida, ou como dizendo hum, você veio pra invadir mesmo o meu espaço.
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Os mesmos (devem ser os mesmos) invasores do Espaço de novo! Os pernas-de-pau – andando na pista sob o sol, adensando o silêncio distante... espontaneamente como os humanos.
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A chapa do escorregador atira sol condensado pra cá também.
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2 12 98
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