VI 33

.
.
.
Soalheira, céu a sol, sol-corisco. Volto às linhas avançadas, velho banco, e dou graças a Deus por esta suave sombra. Os corajosos enfrentam a pista – também suavizada de sombras... mas nos bolsões de luz, de peito a peito a ela. Vem uma mulher empurrando o bebê no carrinho, o que que esta louca vem fazer com o filho. Sai do gramado incendiando e entra na sombra; menos mau, ainda mais levando-se em conta esta brisa, hoje não teremos bebê torrado. Umas três meninas e duas mulheres puxando um garoto saem do bambu-caminho e passam ao meu lado – o Everaldo é um amor de pessoa, mas o João Palhares, nshhh... diz uma das moças, empolgada, borbotando os relatos. O menininho quase encosta em mim; de qualquer modo o seu olhar me raspa, me arrasta, amassa meus papéis e as letras e os óculos, bebe a tinta da caneta enquanto come um pedaço de não sei que comida, parece o fim de um peixe frito. Não sei o que que um sujeito assim, escrevendo – tão suspeitamente? – num parque, desperta de tão curiosamente nas crianças.
.
*
.
Um vendedor de quatrocentas e setenta e três coisas – biscoitos, salgadinhos, um isopor de bebidas... – vende bem aqui à frente, entre mim e a pista. Vender é modo de dizer: está sentado a dois metros da mercadoria, onde a chacina do sol se acalma, e até agora só uma dona à distância perguntou quanto custava um aplacador de sede e, como todo mundo, não comprou nada. Tão desprezado quanto as poesias, afinal os alimentos se parecem.
.
*
.
Eu é que, já já, vou perguntar ao cara o quanto custa.
.
3 12 98
.
.

Nenhum comentário: